Andar sempre apaixonado é uma coisa que vem junto com alguns anos conturbados da vida. Adolescentes e, às vezes os nem tanto ou os para sempre adolescentes, estão sempre apaixonados. Aquela mistura de tormento com alguns instantes de lucidez e razão é um motor poderoso para algumas coisas e um freio potente para outras.
Competir nos esportes tem muito disso. Um impulso instintivo e altamente emocional contrabalançado por alguma tentativa de frieza e planejamento. Se, por um lado a tática, a lógica e a estratégia puxam pela razão e se constroem num lugar um tanto frio, por outro, sem aquele impulso do sentimento, sem a paixão, as coisas caem no vazio. A técnica pura quando muito produz um robô mais ou menos eficaz se as coisas forem estáticas. Como elas não são, entra a paixão para dar vida à técnica.
O que se pode aprender competindo? Costumam dizer que ?aprendemos a lidar com a frustração e outras emoções?, ?aprendemos a vencer e a perder?. No entanto, eu penso que estas afirmações são, para dizer o mínimo, a eternização de alguns clichês que saíram nas ?Seleções? de 1935.
Ninguém aprende a vencer ou perder e nem a lidar com emoções. No máximo vivenciamos mais uma forma de vencer ou de perder, ou, ainda, enfrentamos mais um assalto de alguma emoção, que mesmo conhecida sempre se apresenta nova. Porque cada derrota, cada vitória cada balanço do coração tem sua própria textura, seu próprio e único sabor. Deixam algumas aprendizagens, mas não o domínio linear de sentimentos e atitudes.
Alguns condenam competições esportivas por achar que elas refletem somente a sociedade individualista e extremamente competitiva em que vivemos (e ajudamos a criar). Eu não concordo com isso, embora algumas competições e a postura de alguns técnicos e atletas possam realmente encaixar como uma luva nesta afirmação.
A competição desportiva difere de uma batalha ou de uma concorrência comercial porque, nestas, o oponente deve ser aniquilado, acabando, assim, a disputa. Na competição desportiva é essencial a presença do outro e quanto melhor for o adversário, mais valor terá o jogo. Antes de adversário, o outro é parceiro.
A maioria dos técnicos, pelo menos no nível estudantil, são, antes de qualquer coisa, educadores. E, por isso, a competição é muito mais que uma disputa. Um jogo, sobretudo em desportos coletivos, envolve tantas possibilidades de aprendizagem que, supera em muito uma manhã de aulas na escola.
Aprendemos a olhar o nosso processo, reconhecer os erros e acertos, avaliar, decidir, cooperar. Aprendemos a aprender com as emoções, a buscar o controle, a ouvir, a obedecer, e a desobedecer, também. Aprendemos a viver a amizade, a valorizar o outro. Aprendemos a brigar sem nos odiarmos. Aprendemos a enfrentar desafios, a ter humildade e solidariedade.
O que se pode aprender competindo é que viver (e aprender) é processo, é construção, é a contínua síntese entre razão e emoção. E, numa quadra desportiva, quase sempre a razão e a emoção se encontram e são compartilhadas.
No basquete, um passe é muito mais que um gesto técnico preciso, é um gesto de confiança, é parte de um projeto compartilhado por toda a equipe. É o final de uma ação conjunta que iniciou nos treinos e é o início de uma resposta a um desafio.
Mais do que ensinar as leis da física, um passe ensina a cooperar, no sentido de se tornar um só na ação. Passes ensinam que seja o que for que nos desafia, a solução está no que construirmos socialmente. A nossa individualidade se mostra no estilo, na força, no oportunismo da ação, porém o resultado, o objetivo alcançado vem da ação conjunta de todos.
No esporte descobrimos que o determinismo não se aplica mesmo à vida, que uma vitória não significa que a equipe jogou bem, assim como a derrota não significa, necessariamente, que a equipe jogou mal. A alegria, neste sentido, não depende do resultado, ela fica no nível exato da certeza de ter feito o melhor possível.
Na escola, com suas disciplinas estanques, com a predominância do individual e do monológico sobre o social e dialógico, estar numa equipe desportiva, seja na equipe principal da escola, seja nos times que se formam numa aula de educação física, significa a possibilidade de uma aprendizagem que transcende os escores das provas e os dígitos que aparecem no boletim.
É isso que eu aprendi vendo os meus guris correndo pela quadra no ritmo da paixão.