dez 24 2009

Histórias de Natal II

Categorias: rastros,teoria,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 11:24

Seria muita sacanagem com o feed, então vou continuar a história aqui, motivada pela conversa que aconteceu lá no GReader.

Duas coisas, pelo menos,  ficaram abertas nesta história e, combinadas  com as minhas atuais leituras,  tornaram  a minha historinha de Natal um espaço de reflexão.  Bom porque me ajuda em algumas questões que andam parasitando as minhas horas pensantes.

Na minha história, tirando a parte em que o cachorro sequestra Jesus, o real sentido do Natal fica nas entrelinhas. Isso acontece dentro do contexto das lembranças de uma criança de uns 4 ou 5 anos, que reteve o que era mais marcante: o ritual e as coisas mais mais atraentes.

Minha família era heterogeneamente religiosa: a família de minha mãe tem um forte acento cristão católico-protestante, que foi evoluindo dentro de um sincretismo muito grande. Já o meu pai tinha a crença de que “a melhor religião é uma boa conduta” e alguma birra com padres e missas. Assim, as mensagens que recebíamos eram bastante contraditórias.

No Natal, a parte religiosa equivalia a parte profana, ao que me lembre. Na minha casa, ficava por conta das histórias que a mãe e as avós contavam durante a montagem do presépio. Histórias repetidas, que nós pedíamos. Acho que eram as únicas histórias que a mãe um dia contou. Já o meu pai, o rei das histórias, não contava nenhuma de Natal, a não ser a dos merengues.

Na noite de Natal, havia os cânticos ao pé da árvore e as rezas, estas puxadas pelas vizinhas,  um grupo que de alguma forma estava presente em todos os lugares. O meu bairro, Navegantes, no 4º distrito de Porto Alegre, era um bairro operário e de imigrantes. Tinha  colônias alemã, italiana, polonesa,  fortes .  Meu avô, o morador original, se chamava Franzen, e as pessoas que cercavam a minha infância, eram Rauber, Sgiers, Klaus, … e … Reginatto, Ughini, De Negri, …  Isso deve explicar alguns costumes que caracterizavam a rua e o bairro.

A outra linha de pensamento que esta história abriu foi sobre a questão de classe que emerge em todos os contextos. Foi  por aí que o comentário do Sérgio e as minhas leituras pegaram. Classe, na teoria marxista, não é uma divisão por renda ou origem.  Classe se define por um conjunto de relações sociais características de um grupo, relações estas que instituem uma visão de mundo e conferem identidade.

Toda a história,  aconteceu num contexto de classe e é narrada, também, numa perspectiva de classe, nem sempre a mesma classe.  Quando construímos a nossa vida por meio das diversas práticas sociais, isso é feito ao mesmo tempo em que construímos um conjunto de práticas estéticas, intelectuais, culturais, … Este referencial nem sempre está de acordo com o referencial dominante na sociedade da época, mas sempre e em muitas maneiras é por este subsumido.  As ideias dominantes numa época são  são as ideias da classe dominante (Marx) e elas são a referência para toda a sociedade.

É por aí que o colonizado se identifica com o colonizador.  O nosso Papai Noel disciplinador tinha muito a ver com  adequação do trabalhador para as condições de trabalho, exaltando a conformidade com as regras, a submissão.

Esta perspectiva de classe está presente quando nos reunimos em grupos, quando pensamos transformações na educação, quando produzimos conhecimento.  Nada em educação (e na pesquisa!) fica alheio aos conflitos e contradições deste nosso processo de construção da vida em condições históricas específicas.

Fica evidente, para dar um exemplo do momento, na supremacia do papai noel sobre o menino Jesus. Afinal, o nascimento do filho de um carpinteiro, o Salvador para uma parte da humanidade, não vende mercadorias concretas ou abstratas na mesma proporção que a lenda dos presentes.

Tags: , ,


fev 10 2009

pesquisa auto-referente

Categorias: pesquisa,trabalho,visão de mundo,webSuzana Gutierrez @ 04:24

engrenagensEm 2001\2002, quando iniciei as pesquisas de doutorado, tive dificuldade em localizar material sobre blogs e, mais ainda, sobre blogs e educação. Usava, na época, o All The Web, Cadê, Altavista e o Google, que ainda não era nem 1/5 do que é hoje em termos de tamanho e hegemonia. E, para algumas pesquisas diferenciadas eu usava o Astalavista 🙂

Meu preferido até 2003, mais ou menos, era o All the Web que, junto com o Altavista, pertencia a Overture. Depois, a Overture foi comprada pelo Yahoo e sua história mudou. Por volta de meados de 2004, comecei a usar mais o Google e, hoje, vou direto no quadrinho de busca no canto da barra do Firefox, marcado por padrão para o Google.

Todavia, já faz um bom tempo, os resultados das buscas que faço vem apresentando um comportamento cada vez mais viciado. Eles progressivamente se aproximam dos resultados de outras buscas já efetuadas e do que parece ser o perfil que o Google forma a partir das informações que coleta sobre mim em todos os seus serviços.

Estou tendo uma experiência cada vez melhor do objetivo googliano de “combinar as informações pessoais fornecidas por você com as informações de outros serviços do Google ou de terceiros para proporcionar ao usuário uma experiência melhor, incluindo a personalização do conteúdo para você”. O que é péssimo!

Se, em 2001, muita informação da web ainda não tinha sido rastreada e indexada nos motores de busca, hoje, ela é suprimida por conta de uma seleção feita por máquinas e com critérios (que atendem uma lógica determinada) fora do meu controle. A resposta é aquilo que o Google pensa que eu quero ler.

Deste modo, a rede de informações se fragmenta e se limita em guetos de semelhanças filtradas. Existem partes da rede que estarão cada vez mais indisponíveis para algumas pessoas, via motores de busca. Uma rede que fica cada vez mais auto-referente. Um perigo para quem pesquisa e quer, em termos de busca de informações, ultrapassar a pequena rede de relações mais diretas.

Para não falar nas possibilidades de classificar (no sentido marxista de classe mesmo) camadas de acessibilidade a informações. Uma tendência que pode vir com a mesma transparência com que o Facebook fala da possibilidade de comercializar informações de seus usuários. Parece que o treinamento em desprivatizar informações pessoais, que os sites de redes sociais tornam possível, começa a fazer efeito.

Quando tu, por estes caminhos, começas a operar numa determinada camada info-comunicativa, a tendência é assumir um postinho de trabalho imaterial na linha de montagem. É neste sentido que o conceito e as práticas sociais relacionadas ao que chamam de web 2.0 devem, também, serem pensados. Conceitos marxistas de acumulação, exploração, trabalho e, sobretudo, classes sociais são essenciais para poder compreender estas questões, pensando-as fora da lógica que lhes dá movimento.

Tags: , , , , , , ,


dez 15 2008

A atualidade de Marx

Categorias: teoriaSuzana Gutierrez @ 04:24

Nada como uma das recorrentes crises do capital para trazer o foco para Marx. Alguns falam em ‘reviver’ Marx, como se o seu pensamento estivesse morto e não apenas esquecido, desconhecido e, pior, mal interpretado.
E é por aí que começam a pipocar ensaios, notícias, papo de boteco e outras expressões falando em Marx e em como ele explicou o que vem acontecendo.
Hoje, o Pedro Dória conta que Henry Kissinger está fazendo previsões para o futuro dos Estados Unidos com base na leitura de Marx. Aquele que foi uma importante peça no golpe que acabou com o governo socialista de Salvador Allende, contraditoriamente, usa o mesmo fundamento teórico.
Stuart Hall e outros pensadores que, embora a raiz marxista, se aproximam mais do viés pós-moderno, vem sendo usados como uma referencial teórico para uma possível explicação marxista da web 2.0. [via Intermezzo]
Leonardo Boff, coerente com seu pensamento, avisa que está para chegar o pior da crise, porque o princípio e o fim do capital é o próprio capital o qual por meio do consumo e da produção pela produção em favor da acumulação, não tem limites. – A crise que aí está é mais que uma crise econômico-financeira, é uma crise de humanidade – avisa ele.
Por volta dos anos 1860, Marx havia se convencido da natureza insustentável da agricultura capitalista. – explica o Prof Gilberto Dupas em artigo sobre agricultura, alimentação e saúde, publicado pela Folha e replicado pelo Diário Gauche.

Ler e reler Marx …

A história não conhece sentido único. Nem longitudinalmente, de acordo com a seqüência dos séculos. Nem em corte, quando um pensa a vida do outro enquanto o outro vive o pensamento do primeiro, sem que filosofia e história, economia e política jamais consigam reconciliar-se na harmonia calma da simples “correspondência”. Pensado como “atraso”, em relação a uma norma temporal imaginária, o anacronismo acaba por impor-se não como anomalia residual, mas como atributo essencial do presente. (BENSAID*, 1999, p. 45)
———————-
Para quem não quer começar direto na fonte, é possível ir por aqui:
* BENSAÏD, Daniel. Marx, o intempestivo : grandezas e misérias de uma aventura crítica (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 512p.

——————

update em 16/12

Falando em Daniel Bensaïd, visitem este texto do Alfarrábio sobre o documentário sobre o Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente.

Tags: , , ,


set 04 2005

uma questão de classe

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 08:01

Li, principalmente em weblogs, alguma coisa sobre o furacão Katrina e todo o desastre que está acontecendo em New Orleans. Assisti os noticiários na TV, mostrando imagens da destruição da cidade e do sofrimento a que estão submetidos seus habitantes.

Li, também, as emocionadas críticas ao governo dos USA sobre a incompetência e o descaso no socorro às vítimas e, posteriormente, no acolhimento e tratamento dos desabrigados. Li sobre as diferenças de tratamento dos fatos pela imprensa oficial, onde na cata por alimento e água os brancos acham e os negros saqueiam. Aliás, nas imagens da TV quase que só aparecem negros. Embora apenas 30% da população seja de brancos, é surpreendente que quase não apareçam nas imagens.

Antes e além do racismo envolvido em todo estes tristes acontecimentos está estampada claramente a questão de classe. Quem historicamente não tem facilidade em acessar certos bens (inclusive comida) é tido como assaltante numa situação onde estes bens não estão acessíveis para ninguém. Então, quem na situação normal é reconhecido como quem pode pagar, acha; quem na situação normal é reconhecido como aquele que não pode pagar, saqueia; isso na situação onde qualquer um está tentando sobreviver.

Aqueles que entendem os USA como um lugar onde os direitos são respeitados, onde uma vida digna está acessível à todos, onde a democracia é exemplo, devem observar em detalhes este desastre em New Orleans. Com todo o aparato tecnológico, os conhecimentos, a estratégia, as táticas preventivas (ops, acho que estas só se aplicam à guerra no quintal alheio), os pobres de New Orleans estão literalmente afundando sozinhos.
Nesse sentido, Bush teve de ouvir Fidel Castro oferecer 1000 médicos e toneladas de remédio para ajudar New Orleans. Se achasse que é retórica ou oportunismo deveria aceitar.

Estranhamente tudo isso me fez lembrar algumas palavras de um teórico muito amaldiçoado até pela esquerda:

Mas, para um marxista, é impossível fazer uma análise sem uma caracterização de classe do fenômeno considerado. Os sistemas ósseo e muscular não esgotam a anatomia de um animal; no entanto, um tratado de anatomia que tentasse abstrair-se dos ossos e dos músculos, ficaria balançando no ar. A guerra não é um órgão, mas uma função da sociedade, quer dizer, da sua classe dominante. É impossível definir e estudar uma função sem compreender o órgão, quer dizer, o Estado; é impossível conseguir um entendimento científico do órgão sem compreender a estrutura geral do organismo, quer dizer, a sociedade. Os ossos e os músculos da sociedade estão construídos pelas forças produtivas e as relações (de propriedade) de classe. (TROTSKY, sd, p. 152)

e são estes esqueletos que saem do armário nos momentos de crise.

Para saber tudo sobre New Orleans, não leia a Zero Hora, nem o UOL, tratados de anatomia que esqueceram os ossos, leia o Idelber, jornalismo open source, como diria a Ana.

Technorati Tags: , , , , , ,

Tags: , , , , , , ,


jul 16 2005

Por que Marx?

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 10:57

Emir Sader
Marx foi eleito, pelos ouvintes da BBC – a vetusta emissora estatal britânica, durante o terceiro mandato da “terceira via” de Tony Blair, sob o patronato teórico de Antony Giddens – o maior filósofo de todos os tempos. Por que Marx segue tão atual?

Quando a revista Time fez uma consulta aos leitores para escolher o personagem do século XX, apavorada com os resultados, fez correr a notícia de que Hitler estava em primeiro lugar, em um desesperado apelo aos leitores para brecar esse acesso de sinceridade dos que se haviam pronunciado. Uma articulação paralela levou á vitória de Einstein – em uma homenagem inócua à “ciência”, a partir da teoria da relatividade, sobre a qual a maioria esmagadora dos leitores da Time não entende o significado. Mas foi salva a cara.

A BBC fez circular há algumas semanas noticia de que Marx liderava a lista dos maiores filósofos de todos os tempos em pesquisa que estava realizando, como que apelando para alguma articulação paralela que evitasse essa vitória. A revista The Economist foi buscar, no fundo do baú dos filósofos clássicos, e decidiu que aquele que poderia fazer frente ao barbudo subversivo era… David Hume – talvez considerando que o David poderia ser associado a Beckham e dar popularidade ao empirista inglês. Outros apelaram para Wittgenstein, para Kant, Nietszche e quase para Churchill.
[leia mais]

Tags: ,


jul 05 2005

Um espectro ronda a BBC

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 08:13

É o título da matéria do “The Economist”, que convida seus leitores a tentar frear a ascensão de Marx votando pelo terceiro da lista, o escocês David Hume, um dos maiores representantes do empirismo britânico, na pesquisa da BBC para conhecer os “filósofos favoritos”.

Marx encontra-se em primeiro lugar, seguido por Ludwig Wittgenstein.

Vote aqui

No Terra a matéria completa
Nota: a ideologia, sempre presente, faz com que a notícia saia no setor “divirta-se” do Estadao. >> link

Tags: ,


jul 04 2003

Cyber Marx

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 12:15

Cyber-Marx: Cycles and circuits of struggle in high-technology capitalism, de Nick Dyer-Witheford. Um estudo sobre a revolução tecnológica e a reestruturação capitalista que convivem em nossos dias.


Na Amazon

O trabalho universal é todo o trabalho científico, toda a descoberta e invenção. É realizado pela cooperação de homens de hoje mas, também, construído sobre trabalhos anteriores. Os frutos deste projeto coletivo, critica Marx, é geralmente apropriado pelos tipos mais desprezíveis e sem valor de capitalistas. (tradução minha)

Tags: ,