jan 15 2010

pensando na vida

Categorias: doutorado,pesquisa,rastrosSuzana Gutierrez @ 14:13

A vida é uma coisa muito fugidia, um fluxo que escorre pelos dedos, impossível de segurar para aproveitar mais determinados momentos.  O relato da vida é sempre o relato da vida que passou, uma eterna busca do tempo, perdido para alguns, vivido para todos. Um relato impossível, a menos que se conte em vez de viver, que nos tornemos mais atores que autores da própria vida.

Este início de ano está repleto de coisas sobre as quais valeria escrever. Tantos as pequenas coisas do cotidiano, quanto os inúmeros eventos que povoam o nosso espaço mais geral de vida.  Tudo agora tem efeito global e ninguém escapa de experimentar a aceleração que parece envolver tudo.  É um aprendizado interessante lidar com esta aceleração, não se enredar no fluxo constante de informações.  Aprender a buscar e desfrutar de lugares de quietude e reflexão.

Como todos, entrei 2010 preocupada com as mudanças climáticas e com seu efeitos, a natureza cobrando o seu preço pelo descaso e pela ganância das nossas práticas. Comovida com o que vem sendo o destino de um povo tão sofrido e  explorado como o do Haiti. Pessimista com as possibilidades de mudar este mundo, quando vejo a naturalização destas práticas predatórias em nome do lucro e a convicção de grande parte das pessoas de que ‘sempre foi assim e sempre assim será’.

Por outro lado, continuo persistente pensando alternativas, as tais brechas que se instalam na contradição que é  a forma das coisas se desenvolverem.  Atenta às bifurcações, como o querido Daniel Bensaïd, que se foi faz uns dias, mas que deixa um legado de luta, de lucidez, de re-encantamento com a erpectiva da emancipação.

Aprendendo e compreendendo com aquilo que emerge na e da pesquisa. Mergulhando mais profundamente na complexidade dos temas do meu doutorado. Fazendo escolhas, sofrendo as muitas dúvidas, procurando caminhos de fazer um trabalho que traga alguma contribuição concreta para o contexto no qual o avanço das TIC encontra a formação e o trabalho de professoras e professores.

Estou reservando tempo para pensar. Enquanto caminho, vou fotografando e pensando, olhando com novas lentes o mundo a minha volta, procurando ver além do que se mostra.  Me aproximo do momento em que escrever será um imperativo.

capão da canoa

lugares de quietude

Tags: , , ,


jan 04 2010

2010

Categorias: Brasil,mundo,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 12:02

Este blog entrou 2010 em silêncio. Não porque não houvessem histórias a contar, mas achei melhor ser parte mais ativa delas e perdi alguma coisa daquele lado coadjuvante observador que é o terror da família. Nada de perpetuar na escrita os pequenos dramas e comédias familiares, pelo menos por enquanto.

Além disso, não senti vontade de comentar o mundo a minha volta:  o crescimento canceroso de Capão da Canoa. Nem as tragédias “naturais” que entristecem tantos ou, mesmo, a traição da tecnologia, que expos em rede nacional aquela opinião tão “normal” (mas pouco televisiva), que frequenta as rodas de conversa dos que se julgam mais bem situados na cadeia alimentar.

Dois mil e dez, em que pesem os nossos desejos, é a continuação de 2009,  assim como o Boris Casoy pedindo desculpas foi mais a reafirmação do fato do que a retratação da ofensa. Aliás, o ‘fato’ mesmo nem chegou a ser o preconceito, a insensibilidade e o ódio de classe. O fato foi a cilada tecnológica, o ser pego  fora da hipocrisia.

E é nesta linha tênue entre o que parece e o que é, que a natureza leva a culpa das tragédias. Desastres chamados naturais, nos quais os critérios mercantis, que são a medida de tudo, poderiam apontar os verdadeiros culpados.  Os morros de Angra, a frase do Boris Casoy, a cordilheira de concreto em Capão da Canoa me fazem lembrar que:

A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização *

E, ontem, saiu por aqui o papo sobre o “progresso” de Capão da Canoa.

-Contam –  disse o pai (positivamente admirado) – que existem 90 edifícios em construção e mais 200 com projetos em aprovação.  E aí o debate começou:  sobre o que é o progresso e que critérios o podem caracterizar\avaliar.  Ele advogando que as construções trazem empregos e movimento à cidade, desenvolvimento! Eu falando da favela que cresce junto lá para trás da praia, da precariedade do trabalho e do turismo predatório.

Daí ficamos observando a coisa na prática: o novo edifício em frente à nossa casa, com 50 apartamentos e uns 9 andares, construído onde havia 2 casas.  Onde havia árvores e flores, não sobrou um jardinzinho, o concreto cobriu tudo. Observamos o entra e sai de carros constante e o engarrafamento na rua (que é afastada do centro), mas está repleta de carros estacionados. A noite caiu e foi a hora de observar os gambás saindo de sob o entulho das obras nos poucos espaços vazios, procurando as lixeiras, porque não há mais árvores, nem insetos e nem larvas, … Breve não terão como sobreviver aqui.

A nossa rua, que recebeu nos últimos dois anos uns 4 edifícios (na nossa quadra), não foi alargada, não recebeu nenhum conserto e, principalmente, as redes de esgoto, de água e elétrica permanecem as mesmas. Considerando que, onde haviam 10 pessoas, agora se amontoam 200, estamos com falta de água em certos horários, quedas de energia e qualquer chuva traz aquele cheiro característico de coliformes.

Progresso?  Sim, dentro da lógica que une os deslizamentos, que nem tão democraticamente soterram hotéis de luxo e favelas, e a fala esclarecedora do Boris Casoy.  Pensar em progresso, todavia, implica em considerar dialeticamente a barbárie.

—–

* Marx disse isso em 1847 se referindo às leis dos pobres e as casas de trabalho. Enquanto a lógica se transforma para continuar a mesma, a barbárie acompanha.

Tags: , , ,


nov 13 2009

Os muros invisíveis

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 12:01

Quem vive a história de seu tempo e não a dissocia de seu contexto e de seu devir é responsável por apontar aquilo que que não é óbvio, o que se esconde e o que é escondido. Quando algo  é mostrado, chamar a atenção para o que permanece na sombra como se não existisse.

Quando vi as celebrações do aniversário da queda do muro de Berlim, que este ano faria 48 anos e que morreu aos 28 anos,  não posso deixar de lembrar do muro que fará 48 anos no dia 7 de fevereiro de 2010. Um muro invisível mas nem por isso menos cruel: o embargo econômico, comercial e financeiro contra Cuba.  Um muro construído e reconstruído cotidianamente e que, como o outro,  tem sua história.

((só para registrar))

Tags: , , ,


set 22 2009

Dia sem carro ou dia sem midia?

Categorias: Brasil,midias,mundoSuzana Gutierrez @ 12:14

Enquanto os manifestantes Classe Média estão gastando (só um pouquinho e só hoje) a sola dos seus Nike para sair de casa, estamos vivendo um dia sem informação ou, pior…, o dia da informação manipulada.

A coisa está pegando fogo em Honduras, a embaixada brasileira sitiada e NADA nas nossas TVs. Minto, …. enquanto estou escrevendo estas linhas, a GloboNews está discutindo se o asilo de Zelaya foi feito da forma tradicional ou não… A recomendação é que Zelaya saia do país de novo para entrar ‘direito’ 😀

Mas, para quem quiser ver ao vivo, temos a Telesur:

http://www.telesurtv.net/noticias/canal/senalenvivo.php#

Outro canal é #honduras via Identi.ca\Twitter

Tags: , ,


jan 30 2009

os sinais do mundo

Categorias: ciência,educação,mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 07:36

1 – a crise ambiental não é algo inventado por esquerdistas radicais. Olhe para o céu, olhe para as águas.

2 – uma sociedade capitalista é uma sociedade desigual, autofágica, insustentável. Olhe para pânico dos exploradores de sempre e para como eles resolvem a sua parte da crise. É possível fazer diferente?

3 – os que condenam o Estado dele se socorrem, sem tocar no discurso de um auto suficiente \ regulado Mercado. A personificação das coisas e a coisificação das pessoas.

4 – quando poucos clics podem fazer milhões de cópias de alguma coisa, as noções de propriedade tem de ser revistas. Quando a maior parte da terra pertence a menor parte das pessoas, as noções de propriedade precisam ser repensadas.

5 – a educação, cada vez mais, se consolida como “serviço” e a formação se resume a treinamento para efêmeros postos de trabalho. é possível fazer diferente?

Tags: , , , , , ,


jan 26 2009

propriedade

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 04:55

“Um por cento dos proprietários brasileiros detêm mais de 46% das terras agricultáveis.”*

Qualquer um que fale em abolição da propriedade privada é saudado com uma saraivada de coisas do tipo:

– Te muda para Cuba.
– Isso é conversa de quem não trabalhou duro para ter o que tem.
– Se isso desse certo, a URSS não teria acabado.

e por aí vai.

Agora, considerando a frase que inicia este texto, como se pode falar em liberdade e dizer que o mundo é de todos?

* fonte: Agência Chasque**, via Diário Gauche.
** UMa pena que a excelente Agência Chasque tenha um feed que não funciona.

Tags: , , , , ,



jan 20 2009

O discurso de Obama

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 10:54

Mundo rápido este…

Obama's speech

imagem de emilychang

e, no Chicago Tribune, o discurso.

)) se ele parar com o embargo a Cuba, vou começar a me entusiasmar…

Tags: , , ,


jan 14 2009

Para não esquecer Gaza

Categorias: mundoSuzana Gutierrez @ 07:17

Porto Alegre faz a sua parte:

Ontem, houve a reunião do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino e o ato público no plenarinho da Assembléia Legislativa e, depois, uma passeata.

O PT RS publicou uma nota repudiando as ações do estado de Israel em Gaza.

A Federação Israelita protestou.

O RS Urgente comenta aqui e aqui.

E o que mais se pode fazer?

Boicotar

o Idelber explica bem como.

*********
update:

A Bolívia rompe relações diplomáticas com Israel.

El presidente de Bolivia, Evo Morales, rompió relaciones con Israel tras los continuos ataques que mantiene en la Franja de Gaza, a pesar de las resoluciones de las distintas organizaciones de derechos humanos. “Es urgente convocar a una Asamblea General extraordinaria de las naciones unidas para emitir un voto de condena a la actitud criminal de Israel contra el pueblo palestino”, dijo Morales.

[via Telesur]

Tags: ,


jan 06 2009

Sobre Gaza

Categorias: mundoSuzana Gutierrez @ 12:36

gaza burns por Al Jazeera English

gaza burns por Al Jazeera English

foto por Al Jazeera English
Nos últimos dias me vi compelida a escrever e escrever sobre o que está acontecendo em Gaza. Movida pelo clamor da injustiça e por tudo o que tem me chegado por meio dos blogs, twitter, email.

E, neste processo de mobilização, não deixo de sentir a contradição que é saber que o que ocorre em Gaza é o modo de vida de muitos lugares. Que um quase tão poderoso, porém bem menos visível, massacre se processa em muitos cantos do Brasil, por exemplo.

E, além disso, reconheço a precariedade do que eu poderia escrever sobre o movimento histórico que toma visibilidade no que ocorre hoje em Gaza. Me faltam conhecimentos específicos, conhecimentos estes que os que vem acompanhando a situação nos últimos anos possuem.

Assim, respondendo em parte ao que me foi solicitado neste sentido, tenho procurado fazer o que me é possível, indicando as fontes que eu penso ser confiáveis e consistentes:

Biscoito Fino – Idelber Avelar >> Palestina Ocupada
Amálgama – Daniel Lopes

Eles vem fazendo profundas e contextualizadas reflexões e bem informando.

Indico, também, os blogs que estão publicando direto de Gaza:

In Gaza
Moments of Gaza

E sobre a cobertura da midia brasileira:

Diário Gauche

update: Venezuela expulsa a embajador de Israel

Tags: , , ,


jan 01 2009

Gaza Urgente

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 12:20

Pedro Doria tem razão ao comentar que os massacres não são acontecimentos raros e são tão espetaculares quanto for espetacular o seu possível interesse midiático.
Centenas de mortos são uma tragédia sempre. Mas há uma piada comum de redação: o editor chega para o responsável pela primeira página dizendo que um acidente matou 500. Onde?, pergunta o chefe. Se for na China, 500 não é nada. Se for em Luxemburgo, é uma tragédia nacional. Um não rende nota; outro é chamada de primeira, acima da dobra.
Palestino morto por Israel vende jornal. Israelense morto por palestino, também. E, justiça seja feita, um homem bomba que mate três israelenses vale primeira página. Para os palestinos chegarem lá, é preciso contar na casa das dezenas. Veja-se por outro lado: somalis, mesmo às centenas, às vezes não entram.(Pedro Doria, 01/01/2009)
Porém, o que neste momento acontece entre palestinos e israelitas faz parte de uma história que reflete toda uma ordem mundial que hegemonicamente construída e com caminhos bem claros desde meados do século passado. Caminhos estes nem sempre lineares em direção a uma ideia de progresso de forte acento iluminista, mas com algumas alterações bem escolhidas e atribuídas a uma pretensa pós-modernidade do tempo. Caminhos que retornam sobre si mesmos e que, por isso, abrem espaço para uma nova escuta, uma renovada avaliação.

Assim, acompanhando o que sucede em Gaza, é preciso se manter equilibrado na ponta afiada da crítica e considerar aquilo que se mostra, mas, também, aquilo que se esconde no contexto que hoje vivemos e do qual este terrível desdobramento é tão característico quanto revelador.

Neste sentido, eu recomendo algumas leituras:

EUA e União Européia são cúmplices do massacre em Gaza – por Tariq Ali para o The Guardian, publicado pela Agência Carta Maior.

Tags: , , , ,


dez 29 2008

Genocídio

Categorias: mundoSuzana Gutierrez @ 16:53

Em meio as festas e a gratidão que a maioria de nós expressa por mais um ano de luta que possibilitou sermos mais e melhor, permanece sentimento de impotência perante o sofrimento que é o modo de vida de muitos neste mundo.
Todavia, antes que vire este ano, é preciso que cada um que tenha um espaço de voz grite com as forças que tiver contra o massacre que vem sendo perpetrado na Palestina. Em 3 dias de sucessivos ataques, realizados em horários nos quais as pessoas se deslocavam pelas ruas, já são mais de 300 mortos.
Fazendo a minha parte indico a resenha de Daniel Lopes, A “transferência compulsória” palestina, e o excelente e emocionado texto de Idelber Avelar, 300 mortos e 1000 feridos em Gaza: Israel continua assassinando e os líderes mundiais se calam.

)) pedras contra tanques – imagem de Haitham Sabbah

update:

TV Globo editorializa genocídio em Gaza e Israel testa munição de tungstênio em Gaza, por Cristovão Feil do Diário Gauche, mostrando a pseudoconcreticidade instigada pela midia e o horror da banalização da guerra.

Israel, por José Saramago.

Israel usa Twitter e Youtube para divulgar informações – na Wired.

Verdadeira história não é a contada por Israel  – por Johan Hari no Vermelho.org

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama – traduzida por Idelber Avelar

Tags: , , ,


jul 21 2007

educação x ensino, o vôo 3054, os especialistas e as caixas pretas

Categorias: comunicação,educação,mundoSuzana Gutierrez @ 06:38

ou… a era dos que se especializam em falar sobre qualquer coisa.

O Estadão criou um blog sobre educação>> Renata Cafardo: A boa (e a má) educação, comandado por uma jornalista especializada em educação (isso está lá escrito). A primeira postagem levantou a galera: mais de 100 comentários em poucas horas. A maioria bem críticos, outros tantos bastante sarcásticos.

Corre nas listas de educadores a reclamação: qualquer um acha que pode falar sobre educação e futebol. Eu diria que qualquer um acha que pode falar sobre qualquer coisa. Os blogs e a facilidade de publicação estão aí para provar isso. Esta facilidade de publicação não tem nada a ver com o Estadão, é claro.

Seria interessante assistir a jornalista Renata Cafardo responder aos comentários mais veementes por meio de uma postagem. Como este comentário / postagem do Prof. Paulo Ghiraldelli, por exemplo.

Mas a facilidade de falar tem sido a tônica nos últimos dias, considerando todas as especulações mais ou menos leigas, mais ou menos profissionais, mais ou menos ridículas, mais ou menos mesquinhas, a maioria insensíveis, feitas a respeito do acidente com o avião da TAM.

Mas é preciso vender jornais e passagens, a despeito das pessoas. E a educação tem que se adaptar, também, as demandas do mercado, inclusive o da comunicação.

Sobre isso, as imagens falam:

* publicada com autorização do autor, Eugênio Neves

Tags: , ,


jul 19 2007

vôo 3054

Categorias: mundo,rastrosSuzana Gutierrez @ 08:39

Se nos portarmos bem, está prometido, veremos todos as mesmas imagens e ouviremos os mesmos sons e vestiremos as mesmas roupas e comeremos os mesmos hambúrgueres e estaremos sós na mesma solidão dentro de casas em bairros iguais de cidades iguais onde respiraremos o mesmo lixo e serviremos aos nossos automóveis com a mesma devoção e obedeceremos às mesmas máquinas num mundo que será maravilhoso para todo aquele que não tiver pernas nem patas nem asas nem raízes. (GALEANO, 2001, p. 239)

Sem ânimo para escrever sobre, porém vendo a sociedade espetáculo se apossando de todas as coisas, até da dor e do sofrimento (quando estes tem força de consumo). Lembrei de um trecho de um texto de Kosik (saudade de ler Kosik):

“Vivemos numa época pós-heróica. Isso não significa que no século XX não se realizem ações heróicas; significa apenas que tudo que se faz de bom, grande, corajoso e heróico, tudo que se cria de belo e poético, é arrastado na correnteza da analização e da desindividualização, perdendo sua originalidade e sua força. O poder que influencia fortemente a opinião pública e amesquinha todas as coisas é a alma de lacaio.
O lacaio não conhece heróis. Ele não é, sobretudo, capaz de reconhecê-los. O que caracteriza sua visão do mundo consiste no fato de que ela reduz tudo à escala da banalidade. O ponto de vista do lacaio só lhe permite enxergar motivações amesquinhadas, inveja, pequenas safadezas.
No tempo de Goethe e de Hegel, os lacaios conheciam a intimidade dos seus patrões e por isso não podiam vê-los como heróis; hoje em dia, contudo, o olhar dos lacaios se instalou na visão do mundo dos patrões e dita normas de gosto e de moral: consome avidamente as fofocas e as intrigas da imprensa dos boulevards e julga tudo com seus critérios frívolos e sumários.
Um segundo empecilho no caminho da possibilidade do trágico, no nosso tempo, está na banalização e na domesticação da morte. A morte perdeu o poder que tinha de abalar profundamente os seres humanos e é digerida com certa rapidez no dia-a-dia. A morte do outro, do próximo, não ameaça nos desestruturar: ela é quotidiana, superficial, pouco significativa. Ela nos chega no meio de múltiplas imagens, sucessivas informações e sensações confusas; em seguida, desaparece, sem deixar traços.”(Karel Kosík, tradução de leandro Konder)

Tags: ,


set 04 2005

uma questão de classe

Categorias: mundo,políticaSuzana Gutierrez @ 08:01

Li, principalmente em weblogs, alguma coisa sobre o furacão Katrina e todo o desastre que está acontecendo em New Orleans. Assisti os noticiários na TV, mostrando imagens da destruição da cidade e do sofrimento a que estão submetidos seus habitantes.

Li, também, as emocionadas críticas ao governo dos USA sobre a incompetência e o descaso no socorro às vítimas e, posteriormente, no acolhimento e tratamento dos desabrigados. Li sobre as diferenças de tratamento dos fatos pela imprensa oficial, onde na cata por alimento e água os brancos acham e os negros saqueiam. Aliás, nas imagens da TV quase que só aparecem negros. Embora apenas 30% da população seja de brancos, é surpreendente que quase não apareçam nas imagens.

Antes e além do racismo envolvido em todo estes tristes acontecimentos está estampada claramente a questão de classe. Quem historicamente não tem facilidade em acessar certos bens (inclusive comida) é tido como assaltante numa situação onde estes bens não estão acessíveis para ninguém. Então, quem na situação normal é reconhecido como quem pode pagar, acha; quem na situação normal é reconhecido como aquele que não pode pagar, saqueia; isso na situação onde qualquer um está tentando sobreviver.

Aqueles que entendem os USA como um lugar onde os direitos são respeitados, onde uma vida digna está acessível à todos, onde a democracia é exemplo, devem observar em detalhes este desastre em New Orleans. Com todo o aparato tecnológico, os conhecimentos, a estratégia, as táticas preventivas (ops, acho que estas só se aplicam à guerra no quintal alheio), os pobres de New Orleans estão literalmente afundando sozinhos.
Nesse sentido, Bush teve de ouvir Fidel Castro oferecer 1000 médicos e toneladas de remédio para ajudar New Orleans. Se achasse que é retórica ou oportunismo deveria aceitar.

Estranhamente tudo isso me fez lembrar algumas palavras de um teórico muito amaldiçoado até pela esquerda:

Mas, para um marxista, é impossível fazer uma análise sem uma caracterização de classe do fenômeno considerado. Os sistemas ósseo e muscular não esgotam a anatomia de um animal; no entanto, um tratado de anatomia que tentasse abstrair-se dos ossos e dos músculos, ficaria balançando no ar. A guerra não é um órgão, mas uma função da sociedade, quer dizer, da sua classe dominante. É impossível definir e estudar uma função sem compreender o órgão, quer dizer, o Estado; é impossível conseguir um entendimento científico do órgão sem compreender a estrutura geral do organismo, quer dizer, a sociedade. Os ossos e os músculos da sociedade estão construídos pelas forças produtivas e as relações (de propriedade) de classe. (TROTSKY, sd, p. 152)

e são estes esqueletos que saem do armário nos momentos de crise.

Para saber tudo sobre New Orleans, não leia a Zero Hora, nem o UOL, tratados de anatomia que esqueceram os ossos, leia o Idelber, jornalismo open source, como diria a Ana.

Technorati Tags: , , , , , ,

Tags: , , , , , , ,


Próxima Página »