jul 05 2008

a história de quem

Categorias: viagensSuzana Gutierrez @ 10:26

Aqui, se anda esbarrando na história. Não é fácil andar na Place de la Concorde sabendo que ali mil e tantas pessoas foram guilhotinadas. A história está sempre sendo contada, repetida nos monumentos, nas placas das ruas.

Quase sempre é a história dos vencedores, dos poderosos, como costuma ser. Mas, por vezes, se topa com as histórias simples que por acaso conseguem ter visibilidade. Cartas de soldados, objetos que sobreviveram a destruição de duas guerras, ruas onde aqueles que não tem histõria deixaram a sua marca.

* as foto são do Hotel des Invalides que tem um museu militar incrível.

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set 09 2007

a day in a life

Categorias: rastrosSuzana Gutierrez @ 05:00

Ela reinava soberana entre o arquivo principal e o guichê. Seus domínios foram sempre muito bem demarcados desde a longínqua data onde ela fora designada para a minúscula escrivaninha entre a mesinha do café e a porta. Seus domínios, agora, eram a sala toda.

Aquele posto inicial não se chamava mais escrivaninha, a mesinha do café sumira para o que eles agora chamavam de área de convívio. A escrava que ela fora um dia se transmutara em duas estagiárias que falavam demais e pareciam não saber da existência de nada que não estivesse no computador. Porém, até o dia de hoje, havia a segurança do guichê, as caras ansiosas dos requerentes e o seu poder de vida e de morte sobre os certificados, os atestados e as segundas chamadas.

Aí, um dos vice- diretores não sei de quê (a raça havia se proliferado nos últimos anos; muito cacique para pouco índio, diria o seu pai se vivo fosse) entra na sala cercado pela turma dos serviços, com seus analógicos martelos, metros e serras e, analogicamente, o seu querido guichê sumiu.

(…wearing the face that she keeps in a jar by the door – cantarolava o seu cérebro sempre que se aproximava da grande janela)

– Ampliamos a rede, modernizaremos o atendimento aos alunos! – diz o vice-gordinho desinteressado, como se modernizar alguma coisa não fosse um paradoxo. – Agora é tudo online…. – repetia ele para as duas patetas que batiam as mãozinhas felizes. E a coisa foi por aí. O guri espinhento e escabelado da informática instalou mais dois terminais, não respondendo, como sempre, nenhuma pergunta objetiva.

(Ah, look at all the lonely people …)

As patetas que só conhecem os verbos clicar, deletar, baixar, no âmbito dos procedimentos de trabalho, ficaram perguntando (em vão) quando seria o treinamento. Ela que tivera uma formação à antiga, no tempo em que alguns professores ainda chamavam o “quadro negro” de “pedra”, tinha desenvolvido um bom raciocínio lógico ( a peso de muitos zeros em matemática, incansávelmente recuperados) e, assim, estranhamente, não se assustava com as manhas dos computadores e programas. Mas se ressentia da linearidade dos procedimentos, da insensibilidade dos fluxogramas e ah…, da falta do guichê.

O estranho é que tudo parecia igual no campus: os mesmos hippies a se arrastar pelo pátio, com as mesmas roupas. Igual, se não fossem os reluzentes aparelhos nos dentes e os jeans de griffe que já vinham rasgados do shopping (ah o shopping). Igual, se não fosse os indefectíceis fones nos ouvidos e a torrente de obviedades que saia de suas bocas, quando elas se abriam.

( Where do they all belong ?)

Sem o guichê, ninguém notou a sua falta no outro dia. Nem quando o fluxograma do computador da entrada indicou: 3º dia >> tem justificativa? >> não >> descontar e o computador da seção de pessoal registrou na data conveniente o abandono do emprego.

(No one was saved)

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out 06 2003

histórias da cidade

Categorias: rastrosSuzana Gutierrez @ 09:25

imagem de http://www.japi.org.br/Agora a pouco, vinha retornando do CM quando uma camionete grandona, que vinha embromando na minha frente me fez lembrar uma história. Antes que esta história suma para o arquivo morto, vou contar. Na época, foi uma destas coisas interessantes e até surreais que nos acontecem num dia ‘normal’.

Acho que faz uns dois anos, quando eu vinha, de carro, descendo a Vicente da Fontoura rumo ao supermercado que fica quase na esquina com a Ipiranga. A Vicente, para quem não conhece Porto Alegre, tem um declive bem acentuado nesta direção.
Na minha frente ia uma camionete grande. De repente, surgiu no teto da cabina um bichinho, saído sei lá de onde. O coitadinho, uma espécie de rato sem rabo, deslizava sobre o teto tentando segurar-se, conforme a camionete seguia seu caminho.
Notei que o motorista parecia não ter notado que o seu animalzinho tinha saído e se encontrava por cair na rua a qualquer momento. Buzinei, abanei e nada de chamar a atenção do cara.
Numa destas, o bichinho chegou a se dependurar numa das laterais, quase caindo. Eu, com a alma aflita, e pensamentos sobre a perda de um companheiro querido, assistindo. Foi aí que ele abriu seus espinhos e eu pude identificar: um porco-espinho.
Estavamos chegando perto da entrada do supermercado e eu não teria mais como avisar o seu dono. Foi aí que a camionete sinalizou e dobrou a direita entrando no estacionamento do supermercado. Pois é, … camionete para a direita, porco-espinho arremessado à esquerda.
Ágil, ele caiu no asfalto e correu para a praça que fica em frente à entrada do estacionamento. Ágil, eu entrei direto atrás da camionete e estacionei, rapidamente, ao seu lado. Desci ao mesmo tempo que o motorista da camionete. Preocupada, com pensamentos sobre o destino do bicho, das crianças que ficariam chorando, etc. etc., me parei na frente dele e de uma vez só desembuxei:- O Senhor perdeu o seu porco-espinho!

O cara parou. Olhos arregalados. Juro que cheguei a ver a corrente de pensamento tentando sintonizar alguma coisa na mente dele.  Um longoquase minuto depois ele reagiu:

– Ah… eu estava vindo do sítio…

Aí foi a minha vez de parar e sintonizar a minha militância em prol dos animaizinhos perdidos. É incrível como, às vezes, pulamos uma parte de um raciocínio que seria lógico e viajamos na mais engordurada maionese.

O porco-espinho não era de estimação… era um clandestino. Não que isso invalide alguma preocupação, mesmo que mais distante, por razões anatômicas é claro.  Avisei o pessoal do supermercado sobre o novo morador da pracinha, mas nunca mais tive notícias dele.

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