mai 31 2010

Redes sociais, apropriação (internalização!) tecnológica

Categorias: doutorado,educação,ticSuzana Gutierrez @ 08:38

Pois eu ando bem afastada daqui, mas não afastada dos assuntos que sempre moveram este blog. Estou escrevendo, refletindo, lendo, tornado a escrever, … E trabalhando :) Minha gurizada anda a mil nos campeonatos por aí. Este meu ano atípico se reflete, também, no rendimento deles. Aliás, nosso ano é atípico: eu em fim de doutorado, eles, a maioria dos mais velhos no 3º ano e com o fantasma do vestibular no horizonte.

Mas, ….. sinto saudade de dividir aqui algumas das coisas que ando pensando. Até porque este movimento me ajuda a … pensar :) . Muitas coisas parecem simples de tão faladas e discutidas. Todavia, esta simplicidade é, em grande parte, fruto da nossa tendência a dar as coisas como dadas e naturais.  Por exemplo: a afirmação de que as TIC na educação estão aí para ficar e que é inevitável nos conformarmos e adaptarmos  e que precisamos correr para não ficar ultrapassados e que somos imigrantes que não entendem a linguagem falada pelos nativos e que devemos dar uso a qualquer bobagem tecnológica inventada na semana e que urge

Toda esta conversa incessantemente repetida afeta a formação e o trabalho do professor,  sem que ele consiga tomar nas mãos a direção, sem que consiga adquirir segurança para lidar com todas estas questões, sem que  a reflexão passe da superfície e chegue ao que realmente move todo este processo.

Fica oculto e simplificado o fato de  que a inserção das TIC na formação e no trabalho dos professores é um fenômeno complexo, inserido num contexto maior,  tensionado por contradições que podem direcionar o seu desenvolvimento em sentidos qualitativamente diferenciados e até opostos. Estas tendências de desenvolvimento estão em sintonia com a diversidade de experiências pelas quais os professores passam no processo de apropriação das TIC.

((A própria palavra apropriação pode ser um bom tema de discussão))

Independente de sua opinião, decisão. vontade ou interesse os professores estão em contato com as TIC no seu cotidiano, inclusive na escola, qualquer que seja a organização e o modo de funcionamento da escola. Neste processo de progressiva inserção das TIC, os professores podem oscilar entre diversos contextos de aceitação e de negação, e estas escolhas podem partir de distintos tipos e graus de internalização (aproriação?).

As formações para o uso das TIC em educação podem contribuir para que o professor reconheça a realidade da inserção das TIC na vida, na educação e no trabalho de todos e, também, para o processo de apropriação (internalização?)  das TIC pelo professor. Porém, esta contribuição apresenta resultados diversos, conforme as finalidades, os objetivos e o projeto desta formação.

Algumas formações, apesar de trabalharem com diferentes tipos de tecnologia, exploram pouco o potencial de formação de rede e mantém o mesmo tipo de relação da sala de aula tradicional, na qual a formação de rede também não é muito explorada. A comunicação e as experiências compartilhadas ficam em grande parte apenas entre professor e aluno. Isso quando o professor que está acessível ao aluno não é apenas um tutor cuja função se resume a fazer o aluno acessar os ‘materiais instrucionais’, entender e entregar as tarefas.

O que resulta destas formações mais ou menos monológicas são professores que tendem a não utilizar nada do que aprenderam, que veem as TIC apenas como ferramentas, pois não estabelecem conexões com sua realidade e nem estão aptos a construir com seus pares propostas nas quais as TIC possam ter significado.

Ainda quando o professor participa de uma formação, na qual este estabelecimento da rede é privilegiado, a apropriação das TIC pode não ultrapassar a pseudoconcreticidade (Kosik, 1976), ou seja, a prática alienada na qual os professores sabem usar as TIC, mas não as compreendem. A partir de uma apropriação deste tipo, as possibilidades de transformar a educação, também com a mediação das TIC, fica fora do alcance. Nestas formações, isso acontece quase sempre porque a rede formada (?) se restringe ao curso e seus participantes e se encerra no final das aulas.

No meu entender, para que a formação (formal ou informal) para o uso das TIC em educação contribua para uma apropriação (internalização?)  autônoma, fundamentada na consciência e compreensão das TIC e da realidade social na qual elas se inserem, ela não pode prescindir do engajamento e da participação nas redes sociais online. O processo de apropriação das TIC é alterado quando o professor começa a participar de redes sociais online. Em especial quando estas redes são públicas e redes de professores.

A construção de uma presença online e a reflexão sobre a própria prática em diálogo aberto com seus pares tende a ampliar a compreensão sobre as TIC e os desafios da vida e da educação mediada por elas. A presença online do professor pode ser construída de diversas formas, sendo que páginas dinâmicas como blogues e wikis garantem o espaço para uma presença pública, diacrônica e histórica, uma interface comunicativa para o diálogo e a possibilidade do professor progressivamente ir agregando recursos, procedimentos, rotinas, criando um ambiente pessoal\personalizado de aprendizagem, no qual o professor pode submeter as coisas a própria práxis (Kosik, 1976).

Estas são algumas das coisas que direcionam o que ando investigando. Em princípio, podem parecer óbvias, mas o que nelas se mostra e o que nelas se esconde não é dado de antemão, sem que passe a primeira camada e se considere a totalidade de relações envolvidas.

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KOSÍK, K. Dialética do concreto. 7ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. 230 p.

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abr 25 2009

ainda a escola e a escola na rede…

Categorias: educação,redes sociaisSuzana Gutierrez @ 06:28

Não sei quanto à vocês, mas eu adoro trabalhar na minha escola. E, nas escolas/universidades nas quais trabalhei, somente de uma eu não gostei. Nestes lugares, encontrei de tudo, gente comprometida, gente alienada, gente consciente, gente descompromissada, gente boa e gente falcatrua.

Mas, mesmo naquela que não gostei de trabalhar, a maioria das pessoas estavam no lado bom da força: comprometidas, honestas, parceiras, .. Porém, a maioria não muito consciente. E isso não é defeito, é circunstância. Somos todos conscientes de algumas coisas e não conscientes de outras. Ler o mundo é um aprendizado constante.

Nos últimos tempos, eu tenho dosado o meu natural otimismo com um exercício consciente de algum pessimismo estratégico. Nestas, procuro ver além da aparência das coisas. Sigo Paulo Freire e me pergunto sempre: a favor de quem (ou de quê), contra quem (ou o quê)?

Assim, é preciso ver nestas ações de culpabilizar a escola, os professores, os alunos pelas mazelas da educação, aquilo que é a essência deste movimento. A inserção cada vez maior de formatos derivados da sociedade das mercadorias na constituição da escola, na sua direção e organização. Um movimento que segue aquela lógica de desmontar o que é público e suportar com dinheiro público aquilo que é privado.

Estamos todos (inclusive a educação) incluídos (até digitalmente) num sistema autofágico que anula o nosso espaço pela aceleração do tempo. (a mercadoria tem que girar e os mercados não dormem). Um sistema que reproduzimos e que recria um mundo que, em sua plenitude, destina-se a não mais que 20% dos seres humanos (estou sendo otimista). Um sistema para o qual os 80% restantes só tem importância se servem de engrenagem para o sistema.

E a educação é constrangida a ser apenas uma alavanca para uma possibilidade cada vez mais remota do sujeito sair dos 80 e passar para o seleto grupo dos 20%. A educação deixa de ser formação para ser ferramenta. É por aí que, se a ferramenta não serve ao propósito, ela é abandonada.

E é isso que nos incomoda, que nos faz olhar constrangidos para nossos alunos. É isso que nos faz perguntar incessantemente qual é a saída.

Eu penso que uma possibilidade de saída está na ativação, na vivência, na participação engajada nas redes sociais nas quais estamos inseridos e onde podemos nos inserir. Na totalidade de nossas redes on e off-line (olhem o meu grafinho tosco da entrada anterior).

Sobretudo nas redes sociais online que vieram para ajudar as nossas tão sacrificadas redes offline, desmontadas por esta aceleração do tempo. Porque houveram espaços de vida que nos foram (e continuam sendo) progressivamente roubados. Hoje, não conhecemos os vizinhos, não almoçamos em casa (quando almoçamos!). Professores dão aulas em 3 turnos. Aulas que “pescam” apressadamente/desarticuladamente da cabeça ou roubam do tempo que seria dedicado a família e ao descanço.

Aprender a lidar com a tecnologia, usá-la educacionalmente é uma demanda (um imperativo até) dos orgãos internacionais (Banco Mundial, Unesco que ditam a política educacional aos países empobrecidos – plenamente assegurada pelos nossos subsumidos -, para que continuem servindo ao que se espera deles,). É também uma coisa legal, porque as tecnologias da informação e da comunicação possibilitam espaços por onde se pode transcender e transgredir esta apropriação utilitária que nos propõem.

Então, vamos aproveitar isso. Mas de forma consciente, procurando compreender o que está em jogo quando os governos estaduais fazem acordos de formação com a Microsoft, por exemplo. Quando os governos assinam revistas de quem até pouco tempo vendia pacotes instrucionais para as escolas. Procuremos compreender, também, que o que construímos e damos gratuitamente com nossa colaboração pode e vai ser apropriado privadamente, ou vai dar conteúdo e movimento para empresas que vivem deste “poder do usuário”.

Por isso eu advogo um certo pessimismo estratégico, um pé atrás alternativo. Vamos construir a rede, a nossa formação na rede e as nossas ações, nos nossos termos. E uma primeira ação prática e individual poderia ser um movimento para o social:

  • escolhe uns dez blogs de professores que gostaria de acompanhar (mesmo!)
  • adiciona-os ao agregador de conteúdo (google reader é intereessante, mesmo considerando o monopólio da atenção)
  • acompanha (mesmo!) os blogs: leia, comente, plique, replique, complique.
  • compartilha com tua rede de contados aquilo que achar digno de nota.
  • reforça com comentários e indicações aquilo que compartilharem contigo
  • aponta as contradições sempre
Aliás, vale, sobretudo, sermos conscientes de nossas contradições:

O Brasil é um país em quea independência ante Portugal foi proclamada por um português, a República foi proclamada por um monarquista, o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,o racismo é encoberto por um termo (‘democracia racial’) inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante, a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ….numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes. Essa incongruência não diz algo sobre o que somos? [...] Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.(Idelber Avelar)

Recomendo, para aprofundar algumas destas inquietações ou trazer outras:

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jul 27 2003

enquanto isso na sala de comando…

Categorias: educaçãoSuzana Gutierrez @ 08:10

Oitenta e cinco professores de 43 escolas do sul de Illinois estão participando do Dois dias de treinamento nacional de professores na escola média de Carbondale, para aprender como usar modernas tecnologias para melhor ensinar seus alunos.

O treinamento vem sendo patrocinado pela WSIU-TV, a estação pública de televisão do sul de Illinois na Southern Illinois University Carbondale. “É sobre como usar os meios e recursos na sala de aula para obter mais dos estudantes, para engajá-los e ajudá-los a aprender e serem produtivos para a sociedade onde vivem”, diz Amy Shaw, coordenadora educacional da WSIU-TV. “Não é suficiente apenas prover conteúdo de qualidade.

É importante ter certeza que os professores sabem como usar estes conteúdos na sala de aula”.

.:: artigo em inglês

Sem comentar a visão de mundo que move tais treinamentos lá, pelo menos é claro para eles a importância destas tecnologias na educação. Aqui, enquanto uns criticariam a perspectiva produtivista e o treinamento, outros se manteriam alheios a tudo e poucos uniriam a visão crítica à possibilidade de inserção destas tecnologias em nosso trabalho e do nosso jeito.

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