Maio 22 2009

a mulher e o leme

Categorias: livrosSuzana Gutierrez @ 04:48

bombinhas(diz a lenda masculina que mulheres dão azar em navios. vai ver é porque alguma pode discutir o rumo…)

Quando meus filhos eram pequenos e eu ainda era casada, costumávamos passar o verão acampando em Santa Catarina. Carreta barraca, pouca roupa, barco inflável, coletes salva-vidas, bolas, raquetes, caniços, brinquedos, eram a base da mudança.

Nossos acampamentos ficavam na parte mais selvagem da escala. A programação incluia escalar morros, achar praias desertas, pescar, navegar a costa num bote do tamanho de uma cama. E era bem divertido. Mas não sem alguns riscos.

Numa certa vez, resolvemos atravessar a baia (acho que era Bombas) e rumar para uma prainha deserta quase na ponta do braço de terra que avançava no mar. Era uma praia que não se vê do mar, pois há uma cortina de rochas ocultando a areia. A passagem entre as rochas era estreita e protegia uma mini baia tranquila. Paraíso 🙂

Tivemos de fazer várias viagens com o Rolha (nosso bote) para levar cadeiras, caniços, boias e brinquedos, caixa de isopor com bebidas e lanches, cadeiras, livros, cunhado e cunhada, crianças, …….. Passamos um dia lindo naquele paraíso.

Na época, eu havia optado (sou da privilegiada porção de mulheres que podem optar) por cuidar meus filhos quase em tempo integral e trabalhava pouco. Não sei se esta situação afetou, mas eu passei a me colocar por último nas decisões e nas prioridades familiares (um erro que, se não fosse o quase acima, teria levado a minha vida para rumos que nem gosto de pensar).

Na hora de voltar à civilização, o barco foi levando cunhado e uma criança + cadeiras e caniços, cunhada e outra criança + cadeiras e brinquedos, … No leme o comandante (meu marido) indo e vindo. Só que ele não era um comandante que se preocupasse muito com o navio. Ele gostava do leme, mas cuidar da manutenção do navio não era uma prioridade e, assim, o motorzinho furreca do Rolha vivia todo enferrujado e pifando.

E estragou mais uma vez, bem quando só sobrara na praia o isopor com uma coca-cola dentro, um colete salva-vidas e… eu ( a última). Tempo passando e eu olhando a passagem entre as rochas e nada. Sol se escondendo e os mosquitos chegando para a janta e … nada.

Uma certa preocupação se instalando e eu ali sendo a janta dos mosquitos. Aí resolvi que deveria assumir o leme inexistente da situação. Vesti o colete, centralizei a coca-cola no isopor usando duas pedras, e cai na água nadando rumo a passagem entre as rochas.

Penso que a praia grande, meu destino, ficava mais ou menos 1 Km via mar aberto. No braço eu não sei se nadava, na época. A caixa de isopor era uma opção: deixar ou levar? Levei. Passei sem problemas pelas rochas e entrei no mar aberto e, graças aos céus, calmo de Santa Catarina. Ainda não era noite, mas as luzes começavam a se acender lá ao longe. E eu estóicamente batendo perna.

Depois de uns quinze minutos navegando e empurrando a caixa de isopor (resolvi trazer por causa da coca-cola; vai que eu fico dois dias à deriva) avistei o Rolha vindo ao longe com o valente comandante aos remos 🙂 Demoramos um pouco para voltar, mas o resto da noite foi rir da aventura. E eu ri sem nem pensar em metáforas…

Toda esta história eu lembrei ao ler o texto da Denise, do Síndrome de Estocolmo, comentando o novo livro de Maria Mariana (para falar a verdade, eu só me lembrei – e vagamente – da Maria Mariana, ao ver a foto) e uma entrevista para a Revista Época, com o oportunista, para não dizer calhorda, título de “Deus quer o homem no leme“.

Este meu texto não é para comentar o amontoado de bobagens que pode ser lido na entrevista acima e em citações pinçadas do livro (tem uma sobre catar cuecas sujas do chão que deveria ser motivo para prisão inafiançável da autora [1]). Isso, muita gente já fez muito bem. Esta entrada é para indicar a leitura do texto da Denise e as referências (outras entradas) que ela aponta lá.

Este meu texto é para sinalizar o horror crescente que sinto ao ler o que anda sendo publicado por aí e, pior, badalado, incensado pela mídia que só pensa em vender seja o que for a não importa quem. Não é atoa que, hoje, se tem de entrar numa livraria com um facão para abrir caminho no mato de auto-ajuda e livrinhos descartáveis.

É, também, para dar o meu testemunho pessoal de que manter uma mão no leme salvou a minha vida (aquele quase que eu falo lá em cima). Vivemos em uma sociedade em que manter a independência pessoal é questão de sobrevivência e isso está valendo até para as crianças. Basta uma olhada mais sintonizada nas sinaleiras[2].

Como diria a minha vó: não ocupem o Senhor! Deus não tá nem aí para quem está no leme. É bom você saber navegar e nadar e, se tiver uma coca-cola, leve junto.

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[1] isso pode ser uma idéia 🙂
[2] aqui no sul os semáforos são chamados sinaleiras.
… a foto é minha, de bombinhas (SC) nos idos tempos e não da prainha da história.
… uma coisa é certa, Maria Mariana está conseguindo publicidade para o livrinho, na bas da antiga estratégia do falem mal, mas falem de mim.

update: recomendo, também, a leitura de:

Sobre um recente recrudescimento da misoginia e da homofobia

do Idelber Avelar

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