Depois que eu casei, continuei veraneando na mesma praia de TODA a família do meu marido. Eram férias muito alegres, cheias de festas, primos e primas, brincadeiras, churrascos, amigos de montão. Família reunida até as vós e bisavós que, além de dar o contraponto nos excessos, por vezes, eram as primeiras a topar brincadeiras. Mesmo quando estas não combinavam muito com suas rotinas e crenças.
A nossa preferida era a brincadeira de detetive que incluia a família (numerosa), mais os vizinhos e amigos. Todos participavam e poderiam escolher entre ser detetive ou assassino ou, simplesmente, uma possível vítima. Do sorteio só participavam os que pretendiam ser assassino ou detetive.
Feito o sorteio, o detetive se revelava para o grupo. O assassino, então, tinha cerca de 24h para cometer o crime. Neste processo, ele ou ela deveria correr todos os riscos de se aproximar da vítima, simular o crime e deixar um bilhete indicando hora e forma da morte.
Vós, bisas e pais eram vítimas com grande potencial, pois, entre as causas, as heranças eram possibilidades sedutoras
O morto ou morta não poderia sair do local até ser encontrado. Mas, para evitar mortes por inanição, colocamos duas regras: – o defunto poderia chamar algum passante e informar a morte; – era proibido esconder o corpo.
Depois do crime, o detetive teria dois dias para investigar, fazer o inquérito e elucidar o crime. Neste tempo valia tudo: chantagem, outras mortes, … Todo mundo se divertia a grande, inclusive envolvendo os serviços públicos do município….
Hoje eu quero lembrar de uma brincadeira de detetive em especial. Aconteceu assim:
A família ocupava duas ou mais casas próximas e, cedo para a maioria dos mortais, as vós abriam a sua casa e tomavam chimarrão vendo o dia clarear e os pescadores tomar o rumo do mar. Num determinado dia, a segunda geração, que morava em frente e levantava ali pelas 8h, encontrou a casa das vós toda fechada. Entrando, encontrou as vovós deitadas nas suas caminhas com os bilhetes na mão. Mortinhas!
A bisa Nayr olhou seriamente para a filha (minha sogra) que chegava e setenciou com um olhar acusador:
- Perdi meu mate…
A outra vó, ainda deitada e rindo muito, entregou o assassino, com um legítimo sotaque de Uruguaiana:
-Masss, este Tom!
- Cala a boca, Cotinha! – atalhou a bisa Nayr.
Mesmo achando a brincadeira uma coisa absurda ela cumpriu seu papel direitinho, para deleite dos netos. A severidade dos princípios, o amor à família, a parceria eram a sua combinação incrível.
Esta era a bisa Nayr, que se foi hoje, em paz. Quase cem anos depois que veio a este mundo.
1909 – 2009