mar 29 2010

o espírito da colaboração

Categorias: colaboração,educação,educação física,esporte,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 09:51

Nas minhas aulas as regras do jogo são desiguais. E, quando eu falo em jogo, não estou me referindo à qualquer interação social. Viver não é jogar. Jogo, na afirmativa acima é jogo mesmo: competição, recreativa, esportiva. E o adjetivo “esportiva” é essencial ao lado de “competição”, pois muda definitivamente o sentido usual do termo.

Nas minhas aulas as regras não são iguais para todos. Alunos novos, alunos com dificuldades motoras, alunos muito pequenos ou frágeis, alunos volumosos e lentos, alunos muito altos e fortes, ….. são alguns dos que podem ter de seguir regras diferentes.

Um exemplo prático: numa aula de volei para iniciantes em um 6º ano, os alunos menores e mais franzinos tendem a demorar mais tempo para conseguir sacar da zona de saque. Assim, na hora do jogo, todo o aluno sempre vai sacar de um local do qual consiga fazer a bola passar sobre a rede na maioria das tentativas. A regra do saque é: tente ir se aproximando da zona de saque.

Isso evita: – que o aluno force o movimento, sacrificando a técnica; – que o aluno se sinta inseguro na sua vez de sacar (geralmente há uma comoção quando é a vez do colega que ‘sempre erra’); – que o aluno falhe seguidamente, pontuando mais para o adversário do que para sua equipe; – que o jogo seja centrado no saque, como costuma acontecer em equipes iniciantes. Ninguém erra o saque no jogo e a grande competição na turma fica sendo: em quanto tempo toda a turma conseguirá sacar da zona de saque.

Regras desiguais para os desiguais não são algo prontamente aceito por pessoas que, desde que nascem, são treinadas para valorizar o fato de ultrapassar o outro e a cuidar de si e esquecer os demais. Neste sentido, a educação física traz momentos ótimos para que estes valores sejam reconsiderados e para que todos possam compreender o espírito da colaboração que está dentro da competição esportiva e pode se traduzir em solidariedade. Para confrontar o que está implícito nos outros tipos de competição e, também, para pensar as desigualdades e a forma como lidamos com isso em sociedade.

É nestas horas que aqueles pensamentos senso comum que muitos alunos já trazem para a escola: “o pobre é pobre porque não se esforça”, “todos tem igual oportunidade no vestibular”, … podem ser contestados e discutidos. Se pah, como eles dizem, podemos ampliar a discussão e falar em cotas, royalties do pré-sal, reforma agrária, …

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fev 17 2010

Buzz, Wave, Twitter – a cooperação e trabalho imaterial

Categorias: cooperação,informação,redes sociais,visão de mundo,webSuzana Gutierrez @ 14:39

[aviso]Este texto não é uma análise do Google Buzz ou do Wave. É a expressão da minha opinião sobre os rumos das redes sociais e de seus suportes. Sobretudo uma reflexão inacabada sobre os nossos rumos nas redes. Assim, contribuições, críticas, concordâncias e discordâncias são bem vindas.[/aviso]

buzz twitterNo que se chama de sociedade da informação, a divisão do trabalho assume contornos inesperados. Em vez da tradicional divisão entre quem pensa e quem executa, se intensifica a divisão entre aqueles que conseguem controlar, filtrar e utilizar a informação de acordo com suas necessidades e objetivos e aqueles que se perdem na avalanche de informações. Uma divisão que vai além da divisão que se estabelece no acesso à informação.

Considerando a informação que é produzida e circula na internet, podemos dizer que todos a produzem e reproduzem em maior ou menor grau. Afinal, a maioria de nós trabalha nestas fábricas sem salário que nós mesmo criamos nos galpões fornecidos por grandes corporações, através dos seus aplicativos\suporte de redes sociais. A acumulação capitalista, nestes nossos tempos, não se baseia somente na produção de mercadorias, mas na produção da inovação. E é negócio fazer circular o que cria e alimenta negócios.

Todo o santo dia blogamos, tuitamos, buzzamos e abusamos destes novos verbos, enfim, abastecemos ininterruptamente os canais e os reservatórios de informação, criando um valor que transcende o da informação original e individual. Podemos pesquisar um pouquinho neste imenso fluxo de dados, afinal…, não se amarra a boca do burro boi que puxa o arado. Porém, o fazemos muito aquém do poder das máquinas de pesquisa, que colhem, filtram, recirculam, extraem valor desta nossa cooperação. Não raro nos perdemos na pesquisa e saimos de mãos vazias. Informação demais desinforma. É comum perdermos o essencial no meio do que é banal.

Esta semana, estamos discutindo em diversas línguas, como o Buzz é bom, o quanto o Buzz é ruim, como vamos usá-lo, porque vamos desligá-lo, o quê pode ser melhorado, …  Cooperação, trabalho imaterial, mais-valia total porque estamos trabalhando sem salário. O fazemos de livre e espontânea vontade? Sim. Com consciência? …

Ah! vamos desligar o Buzz, o Twitter, a conexão com a internet … Ops! … É aqui que eu travo. Observo estas redes que formamos, nas quais as pessoas compartilham e recompartilham automaticamente (em grande parte) as informações. Imaginemos um excelente e original texto publicado num blog.  Pela decisão do autor e as possibilidades do suporte, o texto é distribuido automaticamente para os agregadores, via RSS, para o Twitter, para o FriendFeed , Buzz, Tumblr, Facebook etc.

A partir daí rola uma cascata de eventos. O Twitter remete a informação automaticamente para o FriendFeed, para o Tumblr, para o Buz z, para o Facebook e gera um Feed RSS que a contém. O FriendFeed lança no Buzz tudo o que recebeu do blog, do Twitter, do Facebook, e gera um feed RSS. O Facebook faz o mesmo e a coisa toda começa a ficar circular. O eterno retorno da filosofia, um loop mal feito num código 🙂

Além disso, o pessoal pode retuitar e, conta a lenda, que estão pedindo um botão de rebuzzar . (Please, Google, NO!) Toda esta redundância e circularidade acontece, na maior parte, automaticamente e, pior, grande parte das pessoas nunca olha alguns destes seus serviços, que distribuem seus interesses, apesar do seu desinteresse. Um processo bem web 1.0 na web 2.0. Muitas vezes, tudo se resume a linkar seu perfil a um certo tipo de informação ou outro perfil.

À quem beneficia este acúmulo e sobreposição de informações repetidas ad nauseam? Será que a informação não ficará oculta da maioria dos mortais em meio a imensa quantidade de dados que circulam? Alguém aí reparou como estão menos proveitosas e mais difíceis as buscas depois que perfis e alterações de status começaram a ser indexados?

Todavia, … nestas redes que formamos, podemos criar muita coisa boa individual e socialmente. A pergunta é: como aproveitar isso sem incrementar a banalidade e sem reforçar a alienação? Todos estes maravilhosos e nem tão maravilhosos novos meios nos usam em maior medida do que nós pensamos os estar usando.

“Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador” (Marx, O Capital, I, p.357)

O que Marx não previu foi que chegaríamos na mais-valia total, na maior alegria. ((em contrução))

* imagem é CC criada por im a partir de http://www.luclatulippe.com/ e do icone do Buzz.

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jan 27 2010

FSM – Harvey e a transição anti-capitalista

Categorias: movimentos sociais,mundo,política,teoria,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 16:20

Ontem assisti o primeiro debate da reunião de 10 anos do Forum Social Mundial.  Entre as participações enriquecedoras de Susan George, Paul Singer,  João Felício, foi a fala de David Harvey que mais me empolgou.  Harvey, nos últimos tempos vem trabalhando na perspectiva de organizar uma transição anti-capitalista e foi este, dentro do tema proposto para o debate – A Conjuntura Econômica Hoje – , o foco escolhido para a sua fala.

Marco Weissheimer sintetizou muito bem a maioria dos pontos abordados por Harvey, em especial, o que no meu enterder foi o cerne de sua exposição:

Não basta, portanto, denunciar a irracionalidade do capitalismo. É importante lembrar, assinala Harvey, o que a Marx e Engels apontaram no Manifesto Comunista a respeito das profundas mudanças que o capitalismo trouxe consigo: uma nova relação com a natureza, novas tecnologias, novas relações sociais, outro sistema de produção, mudanças profundas na vida cotidiana das pessoas e novos arranjos políticos institucionais. “Todos esses momentos viveram um processo de co-evolução. O movimento anti-capitalista tem que lutar em todas essas dimensões e não apenas em uma delas como muitos grupos fazem hoje. O grande fracasso do comunismo foi não conseguir manter em movimento todos esses processos. Fundamentalmente, a vida diária tem que mudar, as relações sociais têm que mudar”, defende. [ler na íntegra o artigo na Agência Carta Maior]

O que eu acrescentaria é que Harvey abordou o tema proposto de forma dialética, a partir da totalidade. Totalidade, como um todo concreto e relacional, constituído por múltiplas determinações e mediações históricas,  na qual as contradições  são o movimento que desenvolve a possibilidade de uma transição anti-capitalista dentro da atual conjuntura econômica mundial. Uma aula de método dialético e de marxismo.

Essencial a sua afirmação de que é inevitável chegarmos a um ponto de inflexão na história do capitalismo,  sem determinismos lineares, mas considerando a contradição entre os limites de possibilidade de expansão e a necessidade sistêmica da manutenção do crescimento. São estas oscilações quantitativas que determinam as mudanças qualitativas.

Harvey propõe uma teoria da transição que considera dialéticamente 7 momentos, fundamentados na análise de Marx sobre a transição do feudalismo para o capitalismo:

1 – as formas tecnológicas e organizacionais de produção, troca e consumo.

2 – a relação com a natureza

3 – as relações sociais entre as pessoas

4 – visões de mundo (ou concepções mentais do mundo) envolvendo o conhecimento, cultura e crenças.

5 – o processo de trabalho e produção de bens específicos, de serviços, de influências.

6 – os arranjos legais, intitucionais e governamentais.

7 – a direção da vida cotidiana que sustenta reprodução social.

A mudança será efetiva se for conjunta em todas estas frentes, que são  relacionadas. Eu acrescentaria, me valendo de Mészaros (O poder da ideologia), que é necessário assegurar continuidade na mudança e mudança na continuidade, além de pensar o imediato, como imediato estratégico, como transformação que não possa ser tomada ou revertida.

Assim, é importante que o FSM não seja um evento auto-contido no seu espaço tempo de realização, que seja avaliado constantemente, pela ressignificação de suas finalidades e objetivos.  Eu penso que um outro mundo é possível, mas estou consciente de que o caminho é importante e que o rumo deve ser continuamente conferido.

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jan 04 2010

2010

Categorias: Brasil,mundo,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 12:02

Este blog entrou 2010 em silêncio. Não porque não houvessem histórias a contar, mas achei melhor ser parte mais ativa delas e perdi alguma coisa daquele lado coadjuvante observador que é o terror da família. Nada de perpetuar na escrita os pequenos dramas e comédias familiares, pelo menos por enquanto.

Além disso, não senti vontade de comentar o mundo a minha volta:  o crescimento canceroso de Capão da Canoa. Nem as tragédias “naturais” que entristecem tantos ou, mesmo, a traição da tecnologia, que expos em rede nacional aquela opinião tão “normal” (mas pouco televisiva), que frequenta as rodas de conversa dos que se julgam mais bem situados na cadeia alimentar.

Dois mil e dez, em que pesem os nossos desejos, é a continuação de 2009,  assim como o Boris Casoy pedindo desculpas foi mais a reafirmação do fato do que a retratação da ofensa. Aliás, o ‘fato’ mesmo nem chegou a ser o preconceito, a insensibilidade e o ódio de classe. O fato foi a cilada tecnológica, o ser pego  fora da hipocrisia.

E é nesta linha tênue entre o que parece e o que é, que a natureza leva a culpa das tragédias. Desastres chamados naturais, nos quais os critérios mercantis, que são a medida de tudo, poderiam apontar os verdadeiros culpados.  Os morros de Angra, a frase do Boris Casoy, a cordilheira de concreto em Capão da Canoa me fazem lembrar que:

A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização *

E, ontem, saiu por aqui o papo sobre o “progresso” de Capão da Canoa.

-Contam –  disse o pai (positivamente admirado) – que existem 90 edifícios em construção e mais 200 com projetos em aprovação.  E aí o debate começou:  sobre o que é o progresso e que critérios o podem caracterizar\avaliar.  Ele advogando que as construções trazem empregos e movimento à cidade, desenvolvimento! Eu falando da favela que cresce junto lá para trás da praia, da precariedade do trabalho e do turismo predatório.

Daí ficamos observando a coisa na prática: o novo edifício em frente à nossa casa, com 50 apartamentos e uns 9 andares, construído onde havia 2 casas.  Onde havia árvores e flores, não sobrou um jardinzinho, o concreto cobriu tudo. Observamos o entra e sai de carros constante e o engarrafamento na rua (que é afastada do centro), mas está repleta de carros estacionados. A noite caiu e foi a hora de observar os gambás saindo de sob o entulho das obras nos poucos espaços vazios, procurando as lixeiras, porque não há mais árvores, nem insetos e nem larvas, … Breve não terão como sobreviver aqui.

A nossa rua, que recebeu nos últimos dois anos uns 4 edifícios (na nossa quadra), não foi alargada, não recebeu nenhum conserto e, principalmente, as redes de esgoto, de água e elétrica permanecem as mesmas. Considerando que, onde haviam 10 pessoas, agora se amontoam 200, estamos com falta de água em certos horários, quedas de energia e qualquer chuva traz aquele cheiro característico de coliformes.

Progresso?  Sim, dentro da lógica que une os deslizamentos, que nem tão democraticamente soterram hotéis de luxo e favelas, e a fala esclarecedora do Boris Casoy.  Pensar em progresso, todavia, implica em considerar dialeticamente a barbárie.

—–

* Marx disse isso em 1847 se referindo às leis dos pobres e as casas de trabalho. Enquanto a lógica se transforma para continuar a mesma, a barbárie acompanha.

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dez 24 2009

Histórias de Natal II

Categorias: rastros,teoria,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 11:24

Seria muita sacanagem com o feed, então vou continuar a história aqui, motivada pela conversa que aconteceu lá no GReader.

Duas coisas, pelo menos,  ficaram abertas nesta história e, combinadas  com as minhas atuais leituras,  tornaram  a minha historinha de Natal um espaço de reflexão.  Bom porque me ajuda em algumas questões que andam parasitando as minhas horas pensantes.

Na minha história, tirando a parte em que o cachorro sequestra Jesus, o real sentido do Natal fica nas entrelinhas. Isso acontece dentro do contexto das lembranças de uma criança de uns 4 ou 5 anos, que reteve o que era mais marcante: o ritual e as coisas mais mais atraentes.

Minha família era heterogeneamente religiosa: a família de minha mãe tem um forte acento cristão católico-protestante, que foi evoluindo dentro de um sincretismo muito grande. Já o meu pai tinha a crença de que “a melhor religião é uma boa conduta” e alguma birra com padres e missas. Assim, as mensagens que recebíamos eram bastante contraditórias.

No Natal, a parte religiosa equivalia a parte profana, ao que me lembre. Na minha casa, ficava por conta das histórias que a mãe e as avós contavam durante a montagem do presépio. Histórias repetidas, que nós pedíamos. Acho que eram as únicas histórias que a mãe um dia contou. Já o meu pai, o rei das histórias, não contava nenhuma de Natal, a não ser a dos merengues.

Na noite de Natal, havia os cânticos ao pé da árvore e as rezas, estas puxadas pelas vizinhas,  um grupo que de alguma forma estava presente em todos os lugares. O meu bairro, Navegantes, no 4º distrito de Porto Alegre, era um bairro operário e de imigrantes. Tinha  colônias alemã, italiana, polonesa,  fortes .  Meu avô, o morador original, se chamava Franzen, e as pessoas que cercavam a minha infância, eram Rauber, Sgiers, Klaus, … e … Reginatto, Ughini, De Negri, …  Isso deve explicar alguns costumes que caracterizavam a rua e o bairro.

A outra linha de pensamento que esta história abriu foi sobre a questão de classe que emerge em todos os contextos. Foi  por aí que o comentário do Sérgio e as minhas leituras pegaram. Classe, na teoria marxista, não é uma divisão por renda ou origem.  Classe se define por um conjunto de relações sociais características de um grupo, relações estas que instituem uma visão de mundo e conferem identidade.

Toda a história,  aconteceu num contexto de classe e é narrada, também, numa perspectiva de classe, nem sempre a mesma classe.  Quando construímos a nossa vida por meio das diversas práticas sociais, isso é feito ao mesmo tempo em que construímos um conjunto de práticas estéticas, intelectuais, culturais, … Este referencial nem sempre está de acordo com o referencial dominante na sociedade da época, mas sempre e em muitas maneiras é por este subsumido.  As ideias dominantes numa época são  são as ideias da classe dominante (Marx) e elas são a referência para toda a sociedade.

É por aí que o colonizado se identifica com o colonizador.  O nosso Papai Noel disciplinador tinha muito a ver com  adequação do trabalhador para as condições de trabalho, exaltando a conformidade com as regras, a submissão.

Esta perspectiva de classe está presente quando nos reunimos em grupos, quando pensamos transformações na educação, quando produzimos conhecimento.  Nada em educação (e na pesquisa!) fica alheio aos conflitos e contradições deste nosso processo de construção da vida em condições históricas específicas.

Fica evidente, para dar um exemplo do momento, na supremacia do papai noel sobre o menino Jesus. Afinal, o nascimento do filho de um carpinteiro, o Salvador para uma parte da humanidade, não vende mercadorias concretas ou abstratas na mesma proporção que a lenda dos presentes.

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set 11 2009

11 de setembro

Categorias: mundo,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 11:58

Hoje meu dia será supercorrido e não terei chance de chegar perto do computador nas próximas 24h. Aproveito este curto tempo online para lembrar aquilo que não pode ser esquecido e que, infelizmente fica fora das lembranças da nossa midia dominante.

Marx alertou que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante (Ideologia Alemã) e, hoje, lembrando o 11 de setembro, todas as “ideias”, que tentam  passar como únicas, apontam para o que chamam de “O” 11 de setembro:  o atentado ao World Trade Center.

Este triste episódio será relembrado em todo canal de TV, está ocupando grande espaço nos Jornais e nos blogs,  nos tópicos dominantes do Twitter.  Assim, no pouco tempo e no pequeno espaço que tenho, vou relembrar outro triste episódio, um outro 11 de setembro .

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set 03 2009

inclusão é exclusão

Categorias: categorias,teoria,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 11:23

E vice-versa.

Tenho um colega que adora a expressão “me inclua fora desta”. Ele a usa sempre que a ordem do dia contém alguma daquelas missões para as quais necessitamos um cocar com muitas penas como equipamento essencial.

Eu lembrei desta inclusão excludente ao ler alguns textos (no google reader) onde inclusão digital, exlusão social e outras in-ex eram parte do tema.  Reafirmei o meu pensamento de que inclusão e exclusão tendem a assumir contornos absolutos quando, na realidade,  são relativas. Opostos dialéticos, um não existe sem o outro.

Aí o Freddent.eia“:

@amandinhakee, eu vejo as mesmas fotos e o pensamento que me vem é: precisamos de inclusão digital DE VERDADE, associada à inclusão social.

Me deu vontade de entrar na conversa e complicar um pouco estes conceitos de inclusão \ exclusão.  Mas resolvi pular os limites dos 140 carácteres e trazer a possibilidade de diálogo para ambientes mais amplos.  Vim para o blog 😎

Penso que a inclusão de\em alguma coisa inclui (exclui) a exclusão de\em outra numa linha que admite todas as posições entre estes dois opostos. Ser excluído socialmente é estar incluído  num mundo de possibilidades a que não se tem acesso, mas que afetam a nossa vida com força.   Ser incluído digitalmente pressupõem pertencer a um grupo que pode construir\contrapor a sua apropriação às apropriações previstas para a tecnologia digital.

E estas inclusões – exclusões não são totalizantes,  não 🙂 incluem tudo o que pode ser pensado no tema.  E mais,  ambas se 😐 incluem num contexto no qual estas categorias coexistem juntamente com todas as suas relações, também, com todas as condições de sua (re)criação.

Acesso, apropriação, condições de exercer a ação, … são fatores que podem estar ou não, e mais ou menos, presentes nos contextos de in-exclusão.  Por exemplo, as modificações na ‘lei do petróleo’ frente às possibilidades do pré-sal podem ser a tentativa de garantir a inclusão dos menos incluídos (nas coisas boas) da riqueza que é uma possibilidade  deste projeto.  Por outro lado, alguns vêem como uma exclusão do ‘Mercado’ (como personificação do Capital que é)  de uma plenitude destas mesmas possibilidades.

A apropriação privada daquilo que é público está tão naturalizada que garantir a inclusão de todos é visto como uma exclusão dos beneficiários das ‘leis’ que são tidas como naturais, fixas e imutáveis,  ou seja, as leis do Capital.

Assim, no meu entender não existe isso que chamam de exclusão\inclusão. O que existe são vários graus de inclusão subalterna ou de exclusão parcial.   E o pensamento, para dar conta das nuanças deste contexto, precisa trilhar os caminhos da dialética. Aquela de cabeça para baixo que Marx propos já faz um tempinho.

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fev 10 2009

pesquisa auto-referente

Categorias: pesquisa,trabalho,visão de mundo,webSuzana Gutierrez @ 04:24

engrenagensEm 2001\2002, quando iniciei as pesquisas de doutorado, tive dificuldade em localizar material sobre blogs e, mais ainda, sobre blogs e educação. Usava, na época, o All The Web, Cadê, Altavista e o Google, que ainda não era nem 1/5 do que é hoje em termos de tamanho e hegemonia. E, para algumas pesquisas diferenciadas eu usava o Astalavista 🙂

Meu preferido até 2003, mais ou menos, era o All the Web que, junto com o Altavista, pertencia a Overture. Depois, a Overture foi comprada pelo Yahoo e sua história mudou. Por volta de meados de 2004, comecei a usar mais o Google e, hoje, vou direto no quadrinho de busca no canto da barra do Firefox, marcado por padrão para o Google.

Todavia, já faz um bom tempo, os resultados das buscas que faço vem apresentando um comportamento cada vez mais viciado. Eles progressivamente se aproximam dos resultados de outras buscas já efetuadas e do que parece ser o perfil que o Google forma a partir das informações que coleta sobre mim em todos os seus serviços.

Estou tendo uma experiência cada vez melhor do objetivo googliano de “combinar as informações pessoais fornecidas por você com as informações de outros serviços do Google ou de terceiros para proporcionar ao usuário uma experiência melhor, incluindo a personalização do conteúdo para você”. O que é péssimo!

Se, em 2001, muita informação da web ainda não tinha sido rastreada e indexada nos motores de busca, hoje, ela é suprimida por conta de uma seleção feita por máquinas e com critérios (que atendem uma lógica determinada) fora do meu controle. A resposta é aquilo que o Google pensa que eu quero ler.

Deste modo, a rede de informações se fragmenta e se limita em guetos de semelhanças filtradas. Existem partes da rede que estarão cada vez mais indisponíveis para algumas pessoas, via motores de busca. Uma rede que fica cada vez mais auto-referente. Um perigo para quem pesquisa e quer, em termos de busca de informações, ultrapassar a pequena rede de relações mais diretas.

Para não falar nas possibilidades de classificar (no sentido marxista de classe mesmo) camadas de acessibilidade a informações. Uma tendência que pode vir com a mesma transparência com que o Facebook fala da possibilidade de comercializar informações de seus usuários. Parece que o treinamento em desprivatizar informações pessoais, que os sites de redes sociais tornam possível, começa a fazer efeito.

Quando tu, por estes caminhos, começas a operar numa determinada camada info-comunicativa, a tendência é assumir um postinho de trabalho imaterial na linha de montagem. É neste sentido que o conceito e as práticas sociais relacionadas ao que chamam de web 2.0 devem, também, serem pensados. Conceitos marxistas de acumulação, exploração, trabalho e, sobretudo, classes sociais são essenciais para poder compreender estas questões, pensando-as fora da lógica que lhes dá movimento.

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mar 25 2008

eco socialismo

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 12:45

Michael Löwy pensando alternativas para o atual modo de produção e sua economia do desperdício, fala sobre o socialismo ecológico como forma de ajudar os nossos capitalistas a partir para critérios não-monetários e extra-econômicos. (e assim desaparecer…) Busca Marx para lhe ajudar a explicar a importância de colocar como prioridade as necessidades sociais e o equilíbrio ecológico.

Um pequeno trecho do artigo (tradução em português de Portugal):

Como distinguir as necessidades autênticas das artificiais, falsas e criadas? A indústria da publicidade – induzindo necessidades através da manipulação mental – invadiu todas as esferas da vida humana nas sociedades modernas capitalistas: não apenas alimentação e vestuário, mas também desporto, cultura, religião e política são moldadas de acordo com as suas regras. Invadiu as ruas, caixas de correio, ecrãs de televisão, jornais, paisagens, numa forma permanente, agressiva e insidiosa, e contribui decisivamente para os hábitos de consumo compulsivo e conspícuo. Além disso, gasta uma quantidade astronómica de petróleo, electricidade, tempo de trabalho, papel, químicos e outras matérias-primas – todas pagas pelos consumidores – para um tipo de “produção” que não só é inútil, de um ponto de vista humano, mas directamente em contradição com as reais necessidades sociais.

Recomendo muito a leitura!

Ecosocialismo e planejamento democrático

Publicado em Socialismo e Liberdade, Fundação Lauro Ramos

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jul 16 2005

Por que Marx?

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 10:57

Emir Sader
Marx foi eleito, pelos ouvintes da BBC – a vetusta emissora estatal britânica, durante o terceiro mandato da “terceira via” de Tony Blair, sob o patronato teórico de Antony Giddens – o maior filósofo de todos os tempos. Por que Marx segue tão atual?

Quando a revista Time fez uma consulta aos leitores para escolher o personagem do século XX, apavorada com os resultados, fez correr a notícia de que Hitler estava em primeiro lugar, em um desesperado apelo aos leitores para brecar esse acesso de sinceridade dos que se haviam pronunciado. Uma articulação paralela levou á vitória de Einstein – em uma homenagem inócua à “ciência”, a partir da teoria da relatividade, sobre a qual a maioria esmagadora dos leitores da Time não entende o significado. Mas foi salva a cara.

A BBC fez circular há algumas semanas noticia de que Marx liderava a lista dos maiores filósofos de todos os tempos em pesquisa que estava realizando, como que apelando para alguma articulação paralela que evitasse essa vitória. A revista The Economist foi buscar, no fundo do baú dos filósofos clássicos, e decidiu que aquele que poderia fazer frente ao barbudo subversivo era… David Hume – talvez considerando que o David poderia ser associado a Beckham e dar popularidade ao empirista inglês. Outros apelaram para Wittgenstein, para Kant, Nietszche e quase para Churchill.
[leia mais]

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jul 05 2005

Um espectro ronda a BBC

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 08:13

É o título da matéria do “The Economist”, que convida seus leitores a tentar frear a ascensão de Marx votando pelo terceiro da lista, o escocês David Hume, um dos maiores representantes do empirismo britânico, na pesquisa da BBC para conhecer os “filósofos favoritos”.

Marx encontra-se em primeiro lugar, seguido por Ludwig Wittgenstein.

Vote aqui

No Terra a matéria completa
Nota: a ideologia, sempre presente, faz com que a notícia saia no setor “divirta-se” do Estadao. >> link

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dez 15 2003

as transformações do capitalismo ou, afinal, onde andamos

Categorias: política,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 18:34

Alguns posts abaixo, entre outroas coisas, eu falei:

Su: Não vivemos numa sociedade em rede e saimos de uma sociedade de cultura de massa. Vivemos na intersecção destas duas sociedades. Uma sociedade onde a rede opera numa certa esfera e determina consumo de massa de produtos não massificados em outra, e na mesma, pois não são esferas separadas. Uma sociedade que cria um consumo elitista e um desejo de consumo, seja qual for, cuja possibilidade, sempre em modo futuro de realização, dá movimento a máquina.
Esta lógica permeia todos os espaços, mesmo os que tentam lutar contra suas determinações.
A mercadoria e suas metamorfoses ainda é o início, meio e fim destes movimentos. Seja ela a muamba, as ações da bolsa, a informação, o conhecimento. Porque a lógica reduz tudo a mercadoria, inclusive as pessoas, os projetos, …

Aí o Tupi resolveu contribuir com o nosso debate que está rendendo:

Falai’ Su, mil graus o cenario q vc ve de q estamos na transicao entre cultura de massa e sociedade em rede. Mas tipo fiquei em duvida, cultura de massa implica em modo de producao industrial de massa tb? Um modelo q confronta com o modo de producao industrial de massa pode ser considerado submisso ao sistema?

Aí eu pensei em sacar alguma coisa do Harvey, mas o texto legal dele é quase um capítulo e não tem como transcrever ou mesmo fazer uma síntese decente. Então resolvi pegar uns aportes meus, pensados no fim do ano passado, mais ou menos, e que falam nestas coisas, nestas intersecções. Nos mortos que carregamos, segundo Marx.

Su: Quando ele fala em ‘fim da indústria’, pelo seu cada vez menor contingente de trabalhadores, isso não significa que o número de indústrias e o montante de produção reduziram-se. Ao contrário, a produção aumentou e diversificou-se, se considerarmos a totalidade do planeta. Igualmente cresceram o setor de serviços e o agrícola. A economia como um todo cresceu. O que mudou foi a geografia econômica e a configuração interna das atividades produtivas que hoje, pelo desenvolvimento tecnológico, necessita menos presença humana na produção. Porém, o que não mudou foi a lógica que perpassa todo o sistema: quem trabalha vende a sua força de trabalho, quer em atividades manuais repetitivas, quer em atividades intelectuais criativas. Os ‘serviços’ são mercadoria e cotados da mesma forma que os bens. O mesmo vale para o conhecimento e a cultura.
É por estas que insisti nesta questão da lógica que permanece.
Hoje convivem muitos modos de produção. Formas antigas, como as patriarcais, estão voltando com força, exploradas pelo que chamam ‘terceirização.
Tem uma análise bem legal que o Harvey faz disso, quando analisa o as transformações de 1970 para cá.
Todo um discurso sobre supremacia dos serviços, flexibilidade e formas arcaicas de produção dando base para tudo isso.
Com todo o avanço técnico o tempo de trabalho aumenta, assim como aumenta a precarização dos direitos do trabalhador.
Na realidade, o panorama pós-industrial, não é tão pós-industrial assim, pelo menos se pensarmos geograficamente.

:: em tempo: achei algumas transcrições do livro de Harvey, Condição Pós-Moderna. Não sei se abordam nosso assunto, mas deixo os links:

Passagem da Modernidade à Pós-Modernidade
Citações do livro “Condição Pós-moderna”
(fonte: O Dialético)

No segundo texto acima, cuidado apenas com as citações fora de contexto. Pois, no seu livro, Harvey conclui:

“Há alguns que desejam que retornemos ao classicismo e outros que buscam que trilhemos o caminho dos modernos. Do ponto de vista destes últimos, toda a época tem julgada a realização da “plenitude do seu tempo, não pelo ser, mas pelo vir-a-ser”. Minha concordância não poderia ser maior.”

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out 21 2003

navegar é preciso

Categorias: leituras,teoria,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 09:50

ou, … o que existe entre as margens e a beirinha.

Na praia, meu pai costumava dizer:

-Pode entrar, mas fica na beirinha.

A beirinha era o local das crianças, dos veranistas de fim de semana e de quem não soubesse nadar, local possivelmente seguro, como todas as beirinhas o são na maior parte do tempo. Quem já viu uma onda de mais de dois metros se erguer num local com não mais que quarenta centímetros de profundidade, sabe o que um determinado vento ou corrente pode fazer de repente. Não existe segurança absoluta.
Alguns posts atrás, falei sobre o que chamo de paradigma da beirinha ou em como navegar por áreas de segurança (!?). Naquele post falo das margens, mas não aprofundo muito a idéia. Hoje, li na Nova-e uma referência àquele post na coluna do Paulo Bicarato, cuja leitura me inspirou a seguir a reflexão.

Paulo Bicarato fala na transgressão/subversão como ação desvinculada da reflexão crítica e do conhecimento. A agitação em vez da ação estratégica. E finaliza com parte daquele meu post, como um cutucão no debate.

Relendo o que escrevi, penso que existem algumas idéias que podem ser melhor explicitadas e algumas questões socializadas. No post eu falo em margem e em beirinha como espaços de ação dos novos movimentos sociais. E é nestes conceitos que gostaria de fazer algumas considerações.

A margem de um sistema é como a margem de um rio: ela não é rio, é outra coisa. A margem de um sistema é (são) outro(s) sistema(s); a margem de um paradigma é (são) outro(s) paradigma(s). A beira de um sistema situa-se no próprio sistema, mas na margem de outro, assim como, a beira do rio, aquele trecho onde as águas são rasas, situa-se dentro do rio, às margens da terra. Margens e beiras são pontos próximos de fronteiras. Fronteiras que podem ser atravessadas. A transgressão/subversão podem estar presentes nestas travessias.

É prudente e estratégico conhecer o rio que se pretende atravessar. A própria decisão de realizar a travessia implica em conhecer a terra onde se está e a terra para onde se quer ir. Conhecer/aprender no sentido de perceber, reunir informações, interpretar, compreender, avaliar, pensar caminhos, num processo aberto e inacabado.

Por aí que é importante chegar às margens, experimentar a beirinha, mas não tentar fazer delas ou nelas ponto final. Até porque margens e beiras não são estáticas. Sistemas, também, não são. Fronteiras são mutantes, embora a nossa insistência aduaneira.

Fronteiras onde os limites são faróis e não barricadas. Fronteiras, como Boaventura de Sousa Santos fala, onde se vive nas margens sem viver uma vida marginal.

Margens ou beiras onde se aprende a nadar ou a construir barcos. Não qualquer estilo ou qualquer barco, mas os que possam nos levar para a outra margem do rio.

Naquele post, o quê eu tentei expor, e que Ellen Wood aprofunda no seu livro, é que o barco de Morin é bom para navegar na beirinha, mas o barco de Marx ainda é o barco para nos levar para o outro lado.

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set 11 2003

11 de setembro, mas qual?

Categorias: mundo,política,visão de mundoSuzana Gutierrez @ 06:12

O de dois anos atrás ou o de vinte anos atrás? Por trás da destruição de vidas e sonhos subjazem razões muito parecidas. No site do Forum Social Mundial, outras palavras, outro movimento, outra comunicação.

.:: Inércia, inimigo fatal ::.

Num texto que continua atual, dez anos depois de escrito, Emir Sader resgata os traços essenciais da experiência de Allende e alerta: a esquerda que teme as rupturas está condenada a ser vã.

:: leia mais

:: leia, também

nota em 11 de setembro de 2009: infelizmente os links acima não existem mais.

:: recomendo este texto na Agência Carta Maior

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jul 04 2003

Cyber Marx

Categorias: visão de mundoSuzana Gutierrez @ 12:15

Cyber-Marx: Cycles and circuits of struggle in high-technology capitalism, de Nick Dyer-Witheford. Um estudo sobre a revolução tecnológica e a reestruturação capitalista que convivem em nossos dias.


Na Amazon

O trabalho universal é todo o trabalho científico, toda a descoberta e invenção. É realizado pela cooperação de homens de hoje mas, também, construído sobre trabalhos anteriores. Os frutos deste projeto coletivo, critica Marx, é geralmente apropriado pelos tipos mais desprezíveis e sem valor de capitalistas. (tradução minha)

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