Nas minhas aulas as regras do jogo são desiguais. E, quando eu falo em jogo, não estou me referindo à qualquer interação social. Viver não é jogar. Jogo, na afirmativa acima é jogo mesmo: competição, recreativa, esportiva. E o adjetivo “esportiva” é essencial ao lado de “competição”, pois muda definitivamente o sentido usual do termo.
Nas minhas aulas as regras não são iguais para todos. Alunos novos, alunos com dificuldades motoras, alunos muito pequenos ou frágeis, alunos volumosos e lentos, alunos muito altos e fortes, ….. são alguns dos que podem ter de seguir regras diferentes.
Um exemplo prático: numa aula de volei para iniciantes em um 6º ano, os alunos menores e mais franzinos tendem a demorar mais tempo para conseguir sacar da zona de saque. Assim, na hora do jogo, todo o aluno sempre vai sacar de um local do qual consiga fazer a bola passar sobre a rede na maioria das tentativas. A regra do saque é: tente ir se aproximando da zona de saque.
Isso evita: – que o aluno force o movimento, sacrificando a técnica; – que o aluno se sinta inseguro na sua vez de sacar (geralmente há uma comoção quando é a vez do colega que ‘sempre erra’); – que o aluno falhe seguidamente, pontuando mais para o adversário do que para sua equipe; – que o jogo seja centrado no saque, como costuma acontecer em equipes iniciantes. Ninguém erra o saque no jogo e a grande competição na turma fica sendo: em quanto tempo toda a turma conseguirá sacar da zona de saque.
Regras desiguais para os desiguais não são algo prontamente aceito por pessoas que, desde que nascem, são treinadas para valorizar o fato de ultrapassar o outro e a cuidar de si e esquecer os demais. Neste sentido, a educação física traz momentos ótimos para que estes valores sejam reconsiderados e para que todos possam compreender o espírito da colaboração que está dentro da competição esportiva e pode se traduzir em solidariedade. Para confrontar o que está implícito nos outros tipos de competição e, também, para pensar as desigualdades e a forma como lidamos com isso em sociedade.
É nestas horas que aqueles pensamentos senso comum que muitos alunos já trazem para a escola: “o pobre é pobre porque não se esforça”, “todos tem igual oportunidade no vestibular”, … podem ser contestados e discutidos. Se pah, como eles dizem, podemos ampliar a discussão e falar em cotas, royalties do pré-sal, reforma agrária, …


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