dez 23 2009

Histórias de Natal

Categorias: rastrosSuzana Gutierrez @ 10:58

Quem tem um blogue se sente um pouco responsável por não deixar passar sem interferência datas e eventos que mobilizam parte do mundo à volta. Natal é uma delas e eu quase todos os anos falei um pouquinho sobre ele, geralmente de uma forma pessoal, um momento para pensar na família, nos amigos e na vida. É difícil falar de um significado do Natal quando se sabe que é um fenômeno circunscrito à uma parcela pequena da humanidade.  Quando a complexidade do mundo, a ciência e a ignorância e todos os seus intermediários cooperam para que exista uma infinidade de crenças, de opiniões, de dúvidas culpadas e de certezas complicadas .

Assim,  sem muita inspiração para refazer as mensagens tantas vezes feitas de Feliz Natal e um Maravilhoso 2010,  minha mensagem de Natal será uma história da minha infância, nada edificante ou com pretensões de ter uma ‘moral da história’. É só mais uma história de quem teve o privilégio de ter infância,  família e uma vida boa …

Quando eu tinha uma idade que me permitia passar correndo por baixo de uma mesa sem me abaixar muito, os Natais eram acontecimentos marcantes, mágicos até. Quando penso nisso, a sensação é de uma certa angústia misturada com boas expectativas.  (uma sensação que transita entre o estômago e o coração)

A coisa começava no início de dezembro com a montagem da árvore. O pai fazendo o trabalho difícil de se espetar nos espinhos e elevar o pinheiro num canto da sala, para depois, numa escada meio bamba, posicionar as lâmpadas e os enfeites nos lugares mais difíceis, com a orientação nem sempre muito objetiva da minha mãe.

Eu, a mana e o cachorro pairávamos em volta, sentindo a tensão do momento. Dava para notar que quando aquela bolinha vermelha com floquinhos de algodão era mudada pela terceira vez de lugar, o clima ficava polar e se ouviam os sinos das renas.

Na nossa visão infantil aqueles enfeites eram maravilhosos e era com cuidadoso respeito que pegávamos algum deles para alcançar para o pai.  Naqueles tempos onde o plástico não imperava, os enfeites quebravam e somente na parte debaixo da árvore é que  podíamos ajudar.  Não sei bem se a árvore era realmente tão grande quanto eu me lembro, mas ficava linda, dando sombra e iluminando o presépio que a mãe montava embaixo.

E ela o fazia com esmero: areia, caminhos, gramados, lagos, em volta do estábulo estrebaria.  Tudo na calma, apenas quebrada pelo nossa agitação à volta ou quando, de uma feita, o cachorro abocanhou o menino Jesus e saiu como uma bala para o pátio. Salvamos o menino, mas a manjedoura ele roeu e a mãe teve de improvisar com uma caxinha forrada de barba de pau.

A véspera de Natal começava cedo: pobres animais abatidos e assados sem piedade em quase todas as casas de classe média da Av França *, vizinhas circulando e trocando receitas, ajudas e ingredientes. A criançada solta, ninguém controlando quem estava pulando o muro e de que jeito, quem estava na casa de quem. Isso até a tardinha, quando a rua ficava perigosa.

Nada de assaltos ou pedófilos, quem podia assolar a rua a tardinha era Papai Noel. Suas personificações começavam a circular cedo, antecipando a chegada do velhinho. A esta altura todos já estavam de banho tomado e as visitas começavam a chegar. Cada casa da rua ou ficava vazia ou se tornava um microcosmo especial. E, de repente, o sinos…

Em cima do muro, sem coragem de sair a calçada, pescoços espichados, nós espiávamos o fim da rua de onde vinha o rumor inquietante e crescente dos sinos e das pessoas. Gritos, risadas e os sinos da carroça do Papai Noel. Que eu me lembre, nunca esperamos renas , trenós e neve, pois todos sabiam que, aqui, o Papai Noel usava carroça e cavalo. Não havia shopping centers para desmentir.

E aí… era a vez da nossa casa e do nosso julgamento.Alguns tinham de ser resgatados de debaixo das camas.  Claro que desconfiávamos um pouco do rigor, porque o ano era pródigo em artes e apenas algumas iam a julgamento e seus autores levavam um pito do ‘bom’ velhinho. Uma vez, meu avô levou umas varadas, ah… aquelas noites na bocha não iam ficar impunes… E lembro dos olhos arregalados do meu ruivo vizinho, sem erro o guri mais danado da rua, esperando a sua vez. Sempre me surpreendi (com uma alegria feroz) de ver como o rei da rua ficava com cara de bobo no Natal.

E vinham os presentes, pacotes rasgados com pressa, cheiro de boneca nova … E eu fico até com sentimento de culpa por ter vivido tantas coisas boas. Meu pai me conta que a sua mãe enfeitava a árvore com merengues que ela fazia e que eram a sobremesa da festa singela, mas feliz,  da infância dele.  Crianças não precisam de muito.

Nisso tudo, me dou conta que sei tão pouco sobre o sentimento que domina parte do mundo nesta época. De que as lembranças do Natal de tantos podem ser tão tristes e tão mais parecidas com as do Natal original. O que não me impede, também,  de antecipar que amanhã estarei com os meus pais, minha irmã, meus filhos e sobrinhos para viver mais uma história de Natal.

——

* update :  As vezes o que se escreve pinta um quadro diferente do real. As casas da Av. França não eram o que se diz ser ‘classe média’ hoje, eram quase todas de madeira, um pouco altas do chão por causa das enchentes. Quando eu era criança, os muros baixos e puláveis já haviam substituído as cercas na maioria das casas.  Assim, melhor descrever do que classificar 🙂  (tks Sérgio)

** mas eu acreditava em Papai Noel 🙂

… continua

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3 Respostas para “Histórias de Natal”

  1. Sérgio Lima says:

    Opa Su,

    Depois escreve sobre o que você pensou após o comentário no GR!

  2. gutierrez/su » Histórias de Natal II says:

    […] minha história, tirando a parte em que o cachorro sequestra Jesus, o real sentido do Natal fica nas entrelinhas. […]

  3. Suzana Gutierrez says:

    escrevi 😛 E haveria mais sobre o que escrever, mas fiz um recorte. Ah o tempooooo. Feliz Natal, guri 🙂 e obrigada pelas provocações.

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