abr 25 2009

ainda a escola e a escola na rede…

Categorias: educação,redes sociaisSuzana Gutierrez @ 06:28

Não sei quanto à vocês, mas eu adoro trabalhar na minha escola. E, nas escolas/universidades nas quais trabalhei, somente de uma eu não gostei. Nestes lugares, encontrei de tudo, gente comprometida, gente alienada, gente consciente, gente descompromissada, gente boa e gente falcatrua.

Mas, mesmo naquela que não gostei de trabalhar, a maioria das pessoas estavam no lado bom da força: comprometidas, honestas, parceiras, .. Porém, a maioria não muito consciente. E isso não é defeito, é circunstância. Somos todos conscientes de algumas coisas e não conscientes de outras. Ler o mundo é um aprendizado constante.

Nos últimos tempos, eu tenho dosado o meu natural otimismo com um exercício consciente de algum pessimismo estratégico. Nestas, procuro ver além da aparência das coisas. Sigo Paulo Freire e me pergunto sempre: a favor de quem (ou de quê), contra quem (ou o quê)?

Assim, é preciso ver nestas ações de culpabilizar a escola, os professores, os alunos pelas mazelas da educação, aquilo que é a essência deste movimento. A inserção cada vez maior de formatos derivados da sociedade das mercadorias na constituição da escola, na sua direção e organização. Um movimento que segue aquela lógica de desmontar o que é público e suportar com dinheiro público aquilo que é privado.

Estamos todos (inclusive a educação) incluídos (até digitalmente) num sistema autofágico que anula o nosso espaço pela aceleração do tempo. (a mercadoria tem que girar e os mercados não dormem). Um sistema que reproduzimos e que recria um mundo que, em sua plenitude, destina-se a não mais que 20% dos seres humanos (estou sendo otimista). Um sistema para o qual os 80% restantes só tem importância se servem de engrenagem para o sistema.

E a educação é constrangida a ser apenas uma alavanca para uma possibilidade cada vez mais remota do sujeito sair dos 80 e passar para o seleto grupo dos 20%. A educação deixa de ser formação para ser ferramenta. É por aí que, se a ferramenta não serve ao propósito, ela é abandonada.

E é isso que nos incomoda, que nos faz olhar constrangidos para nossos alunos. É isso que nos faz perguntar incessantemente qual é a saída.

Eu penso que uma possibilidade de saída está na ativação, na vivência, na participação engajada nas redes sociais nas quais estamos inseridos e onde podemos nos inserir. Na totalidade de nossas redes on e off-line (olhem o meu grafinho tosco da entrada anterior).

Sobretudo nas redes sociais online que vieram para ajudar as nossas tão sacrificadas redes offline, desmontadas por esta aceleração do tempo. Porque houveram espaços de vida que nos foram (e continuam sendo) progressivamente roubados. Hoje, não conhecemos os vizinhos, não almoçamos em casa (quando almoçamos!). Professores dão aulas em 3 turnos. Aulas que “pescam” apressadamente/desarticuladamente da cabeça ou roubam do tempo que seria dedicado a família e ao descanço.

Aprender a lidar com a tecnologia, usá-la educacionalmente é uma demanda (um imperativo até) dos orgãos internacionais (Banco Mundial, Unesco que ditam a política educacional aos países empobrecidos – plenamente assegurada pelos nossos subsumidos -, para que continuem servindo ao que se espera deles,). É também uma coisa legal, porque as tecnologias da informação e da comunicação possibilitam espaços por onde se pode transcender e transgredir esta apropriação utilitária que nos propõem.

Então, vamos aproveitar isso. Mas de forma consciente, procurando compreender o que está em jogo quando os governos estaduais fazem acordos de formação com a Microsoft, por exemplo. Quando os governos assinam revistas de quem até pouco tempo vendia pacotes instrucionais para as escolas. Procuremos compreender, também, que o que construímos e damos gratuitamente com nossa colaboração pode e vai ser apropriado privadamente, ou vai dar conteúdo e movimento para empresas que vivem deste “poder do usuário”.

Por isso eu advogo um certo pessimismo estratégico, um pé atrás alternativo. Vamos construir a rede, a nossa formação na rede e as nossas ações, nos nossos termos. E uma primeira ação prática e individual poderia ser um movimento para o social:

  • escolhe uns dez blogs de professores que gostaria de acompanhar (mesmo!)
  • adiciona-os ao agregador de conteúdo (google reader é intereessante, mesmo considerando o monopólio da atenção)
  • acompanha (mesmo!) os blogs: leia, comente, plique, replique, complique.
  • compartilha com tua rede de contados aquilo que achar digno de nota.
  • reforça com comentários e indicações aquilo que compartilharem contigo
  • aponta as contradições sempre
Aliás, vale, sobretudo, sermos conscientes de nossas contradições:

O Brasil é um país em quea independência ante Portugal foi proclamada por um português, a República foi proclamada por um monarquista, o mais radical movimento igualitário foi liderado por um pregador moralizante e religioso,a Revolução Burguesa foi feita pelas oligarquias,a eleição republicana-moderna (1930) teve sufrágio mais restrito que a eleição monárquica-imperial (1821),o mais ilustre gesto de um presidente foi um suicídio,o racismo é encoberto por um termo (‘democracia racial’) inaugurado em público pelo maior líder do movimento negro,a subvenção pública e a estatização floresceram na ditadura de direita,a redemocratização foi presidida por um homem da própria ditadura,a discriminação racial é mais visivelmente proibida justo no lugar onde ela mais obviamente se manifesta,só se removeu por corrupção o presidente cuja única plataforma eleitoral era varrê-la,a maior privatização foi feita pelo príncipe da sociologia terceiromundista e esquerdizante, a universalização do capitalismo e o auge dos lucros bancários se dão sob o líder sindical que fundou um partido socialista e ….numa Praça Tiradentes não há estátua de Tiradentes, mas de D. Pedro I, neto da Dona Maria que ordenara a morte do alferes. Essa incongruência não diz algo sobre o que somos? [...] Mesmo que Tom Jobim não tivesse feito mais nada, só pela frase o Brasil não é para principiantes ele já mereceria nossa memória.(Idelber Avelar)

Recomendo, para aprofundar algumas destas inquietações ou trazer outras:

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8 Respostas para “ainda a escola e a escola na rede…”

  1. André HP says:

    Tem um professor de filosofia na universidade que positivista ao extremo. Ele tem aversão ao Paulo Freire.

  2. Robson Freire says:

    Minha cara Suzana

    Adoro vir aqui e ler o que tu escreves. Que espetáculo de postagem, que visão global do tema e que acima de tudo propõem uma reflexão mais profunda. Um repensar necessário.

    Todos nos sabemos que o mudar está muito mais além do simplismo que estamos propondo, mas essa ação coletiva que estamos promovendo é sim o melhor caminho para descobrir como faze-la.

    O construir de redes como tu propõem é muito importante pois através dessas redes são formados pensamentos e desenvolvidas propostas que podem sim promover mudanças não globais inicialmente, mas que por força do coletivo pode ter uma força superior.

    Advogar esse certo pessimismo estratégico, manter esse um pé atrás alternativo é sim uma boa estrategia pois o “mergulhar de cabeça” costuma dar muita dor de cabeça e olha minha amiga eu já tive muitas.

    Peço licença a você para mostrar os seus textos aos professores aqui na minha rede, pois quero que eles vejam e tem acesso a esse material que na minha humilde opinião devia ser emoldurado.

    Abraços do seu fã provocador.

    Robson Freire

    Em tempo estou sentindo falta do José Roig e da Lilian nesse debate.

  3. Suzana Gutierrez says:

    Opa!

    André, uma pena e uma contradição. Positivistas não deveriam ter aversão, deveriam estudar todas as variáveis :)

    Oi Robson
    Tudo copyleft :) assim, para mim é motivo de orgulho colaborar com teus colegas :)

    abraços aos dois!

  4. Volney Faustini says:

    Su

    Tive um surto agora pouco – aqueles de, por não acreditar em coincidência, não acreditar0acreditando que era real.

    Cheguei até vc pelo twitter num texto sobre o futuro dos blogs, uma referência ao Ronaldo de BH do Superfície Reflexiva, e estando literalmente 24 horas (ao longo de umas tantas semanas) com o tema d’O Novo Aprendiz fervilhando na minha mente.

    E seu blog – com este mais recente texto (o primeiro que li – por enquanto), tendo tudo a ver com minhas neuras do momento.

    Me considere um aliado seu – e vamos fazer o movimento para efetivamente revolucionar a educação!

    Conte comigo!

  5. Suzana Gutierrez says:

    Oi Volney

    As coincidências em nossos pensamentos vão nos agrupando nas redes sociais.

    Vamos pensar juntos :)

  6. Conceição EJA says:

    Oi Suzana

    Eu realmente queria saber o porquê das parcerias da Microsoft com os governos estaduais, indo na contramão do proinfo com os linux…
    Vou ter que ler de novo, com calma, há muitas considerações aqui.

    Um abraço

  7. Ademar Oliveira de Lima says:

    Estive por aqui lendo e aprendendo um pouco com você!!! Abraços Ademar!!!

  8. Eloisa Menezes Pereira says:

    Suzana,nossa educação continua doente.Rui Barbosa tentou fortalecer e agilizar o ensino,contudo, há interesses maiores.Nós,professores,somos mediadores da imposição dos governantes e a ignorância do povo.Realizamos todos os mandos com lealdade disfarçada.
    Nosso alunos são repetitivos de nossas falas,portanto,mecânicos e bitolados.
    Que educação transladamos? Diagnosticamos a doença e apenas amenizamos a dor?Por que não tentamos orientá-los a procura um especialista?
    Os jesuitas reencarnaram nos professores,pois apenas catequisamos.
    Desejo que haja renovação na cultura do educador.

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