Maio 20 2008

A pesquisa, o treinamento e a metodologia

Categorias: basquete,pesquisaSuzana Gutierrez @ 02:24

Todo pesquisador sempre se surpreende um pouco quando chega aquela hora de pensar, escolher, detalhar, fundamentar a forma de onde olha, como olha e como registra o fenômeno que vai investigar. Principalmente se o seu objeto de estudo são as pessoas, suas ações e os significados que elas assumem nos mais variados aspectos.

Impossível não se enrolar um pouco, não duvidar do que se tinha por certo e não discutir consigo mesmo e com os desafortunados colegas que cruzarem a nossa ‘bolha pesquisadora’, aquele universo particular que carregamos por todo lado em tempos de investigação.

Pois faz dias que o meu sono se abrevia em algumas horas, que o meu normal desligamento se aprofunda porque estou derivando em duas direções, pelo menos. Uma é a preocupação com os aspectos metodológicos de minha proposta de tese, a outra é a preocupação com os procedimentos do treinamento da minha equipe de basquete.

Se parecem dois assuntos completamente diferentes, podem anotar aí que não são. A principal diferença é que no basquete eu já sei onde quero chegar e na pesquisa o final não está determinado. Em ambos eu traço objetivos, metas, estratégias, dentro de um referencial que não é de hoje que estou construindo. Referencial que em alguns pontos é muito semelhante e em outros bastante específico.

A visão de mundo é a mesma, construída não sem alguma dor, não sem muitas dúvidas, sob o peso de uma realidade que marca ao mesmo tempo que é difícil de apreender, que limita ao mesmo tempo que ilude.

A metodologia não consegue se afastar de partir das contradições que movem esta realidade, mas, que pelas características dela, é um campo minado de dúvidas, cansativo às vezes, desafiante noutras.

E novamente hoje eu acordei antes do relógio, pensando em como conciliar a abordagem de uma metodologia, com a visão de mundo de outra, com procedimentos de análise de uma terceira. A pesquisa on-line ainda precisa que a metodologia seja estudada, aprofundada, modificada junto com o fenômeno que se quer interpretar, explicar.

Basquete Infantil
Os objetivos são parecidos, mas os olhares não convergem.

E lembrei de ter sonhado com treinos de basquete. E derivei para os problemas de lidar com duas metodologias, duas finalidades no mesmo treino. Pensei nos meus objetivos e nos deles. E, pela milésima vez me questionei sobre as diferenças. E, disso, passei para as pequenas coisas, as picuinhas do dia dia na quadra. Brincar no treino ou brincar com o treino?

Aí pulei da cama, fui fazer um café e escrever isso aqui. Porque, que nem Alice, eu estava pensando em duas coisas ao mesmo tempo. Como sempre! Acomodei o basquete num cantinho por um tempo e estou focando no problema mais complicado: os meus prazos e o quanto eu quero avançar neles.

A metodologia me faz pensar as coisas movidas por suas contradições; que os fenômenos evoluem pela dialética entre os opostos em luta no seu interior. O método pode, entretanto, não ser procurar o fundamento e a essência do fenômeno, ver como a contradição age ali. O método pode ser viver o fenômeno, junto com quem vive aquela realidade, descrever, aprofundar o olhar. Ao mesmo tempo em que considerar os significados, desvelar o que a realidade aparente esconde e, neste movimento, confrontar a contradição, aproximar metodologias.

E, depois, olhar para aquilo que coletamos, sem domesticar este olhar, deixando que a teoria aflore e, se formos felizes :), que ela explique um pouco, que ela construa um degrau na compreensão. Que, se ela por si só não transformar a realidade, que seja um passo à frente no sentido desta transformação.

Meu café esfriou…

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4 Respostas para “A pesquisa, o treinamento e a metodologia”

  1. dasilvaorg says:

    Oi Suzana,

    Posts como este parecem uma conversa em arquibancada vazia, com aquelas 3 ou 4 pessoas que ficaram para se ouvir umas às outras.

    Desejo Luzes no Seu Pensar.

  2. Suzana Gutierrez says:

    Oi Da Silva

    Posts como este são a janela para uma conversa interior (aquela que eu fatalmente esqueceria não fosse o registro). E aí não importa nem se existe arquibancada.

    Esta, no meu entender é uma das grandes virtudes de um blog. Permitir que o autor seja a sua própria audiência. E, nisso, tornar possível ressignificar algumas coisas.

    abraço!

  3. netnografando says:

    Suzana,
    Acho que faltou falar que arquibancada vazia como alegoria é porque teu post resgatou em mim uma agradável sensação de conversa entre amigos, sobre as inquietações da vida, depois de uma partida de Volley (eu costumava jogar). Ou seja, já foi todo mundo embora, mas quem ficou alí na tal “arquibancada vazia” estava com vontade de conversar, de partilhar um do outro….
    Acho que foi a carga de sinceridade, abertura, de sentimento, de inquietação real, de ser gente. O que vai muito além dos # e @, como diria você.

    Ah… Obrigado pela visita. Mas, não se preocupe em responder por lá, eu tenho tido muito prazer em vir por aqui.

  4. Suzana Gutierrez says:

    Eu compreendi isso assim mesmo. Mas tem sido forte para mim esta perspectiva já tão sabida, mas ainda assim tão surpreendente nova dos blogs. POr isso o registro 🙂

    Mas eu comento aqui e lá, porque é legal linkar os papos, até porque aquele teu post de certa forma combinou com este aqui. No sentido das coisas que se mostram e, ao mesmo tempo se escondem. Ideologia, neh