set 07 2005

outro sete de setembro

Categorias: Brasil,políticaSuzana Gutierrez @ 07:52

ou de como a nossa ( ) in ( ) dependência vem tentando (ou não) acontecer.

Conta a história da história que o nascimento de Cristo não foi em 25 de dezembro, que foi um pouco antes, lá por abril. Lá vai a ciência desvelando mais uma mentira famosa. Conta que a Igreja, para dar um empurrãozinho no cristianismo colocou o Natal bem na data de uma festa pagã popular. Sabe como é, festejando juntos, aos poucos os festejos e as festas se identificam e se diluem uma na outra. Foi assim que a festa do sol virou natal.

Foi mais ou menos assim que o sete de setembro marcou a independência do Brasil. Não que alguns fatos , o grito no Ipiranga, a separação legal do Brasil de Portugal etc., não houvessem ocorrido, porém faltou a essência da coisa: a independência. Aliás, a verdade, como no caso da data do nascimento de Jesus, não era importante. Importante era a forma que lhe foi dada.

Já nos disse Debord (1997, p. 18) que quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. E a nossa independência é uma imagem tantas vezes recriada que temos como dado aquilo que precisa ser construído.

No Brasil do século XX, conviveram e lutaram entre si três projetos de desenvolvimento e de sociedade (FRIGOTTO, 2004 ; FIORI, 2002): liberalismo econômico, nacional desenvolvimentismo, desenvolvimento econômico nacional e popular. O primeiro, baseado no ajuste fiscal, na redução do Estado, esteve (está?) recentemente atuante, dando sustentação ao governo de Fernando Henrique Cardoso; o segundo, foi o expoente da era Vargas, com seus avanços e suas mazelas e cuja legislação trabalhista vem sendo posta em questão hoje. O terceiro, o plano de construção de uma nação soberana que se relacione internacionalmente em autonomia, considerando a nossa história e valorizando nossa cultura e valores, nunca esteve no poder. Esperava-se que chegasse ao poder quando assumiu Lula.

Os dois primeiros projetos, cada um ao seu modo, legalizaram a desigualdade e a forma excludente de ser de nossa sociedade. Do terceiro, esperava-se que pudesse por fim à nossa dependência e subordinação ao capital e às suas personificações internacionais. Isso implicaria, entre outras coisas, em rever/renegociar nossa dívida externa ; em implantar uma reforma agrária que evitasse que, num país imenso e deserto, milhões de pessoas não tivessem a oportunidade de plantar e viver; uma reforma social (tributária, educacional etc) que diminuisse o fosso de desigualdade.

Porém, para se tornar elegível, Lula e o PT venderam a alma, estabeleceram alianças indefensáveis, que alguns (e eu entre eles) consideraram estratégicas e que hoje vêm a fazer com o governo e o partido a mesma homogeneização com as forças de direita que a igreja conseguiu implantar, num certo sentido estratégico também, entre cristianismo e paganismo ao alterar a data do nascimento de Jesus. Assim, como que se cria uma direita progressista que apoia Lula e uma esquerda moderada que põe em prática os projetos da direita. Deste estranho casamento surge a conjuntura a que estamos submetidos agora e que não deveria, mas surpreendeu a esquerda que acredita que um outro Brasil é possível.

No meu entender, adiamos mais uma vez a possibilidade de legitimar os festejos de sete de setembro e realizar de fato a nossa independência. A resolução da crise que estamos vivendo vai apontar o tamanho deste adiamento. Cabe a esquerda olhar para trás e ver onde as ações acumuladas romperam o limite da medida e determinaram uma trajetória diferente para o seu projeto. Cabe, também, não se deixar levar pelos oportunismos gerados pelo contexto, os quais a direita mais reacionária vem aproveitando tão bem. Desconsiderar as imagens e evitar o comportamento hipnótico.

O que faz um pesquisador quando o fenômeno estudado remete para um beco sem saída? Além de considerar bem se este sem saída é definitivo, o normal é voltar aos dados , à história e ver onde a trajetória eventualmente se desviou. Não permitir que a aparência encubra a essência das coisas. Porque a realidade não se mostra imediatamente ao homem (KOSÍK, 1976). Por isso, muitas vezes, as pessoas conhecem ou manejam a realidade, mas não a compreendem. A divisão do trabalho coopera para a fragmentação do conhecimento e a visão parcial da realidade imediata e, também, para a aceitação de afirmações que até invertem o sentido das coisas.

Neste sete de setembro, proponho uma reflexão que considere que estamos juntos num país e num mundo onde os bons frutos da nossa prática social e do nosso conhecimento se multiplicam e, ao mesmo tempo, se concentram nas mãos de uma parte da humanidade cada vez menor. Uma reflexão que possa pensar alternativas à partir desta consciência e que possa nos conduzir à verdadeira independência. Uma independência que não é um prescindir do outro, ao contrário, uma independência que parte da consciência de nossa interdependência como seres humanos e da autonomia como imperativo ético.

update 12:10 >> vamos as referências:
DEBORD, G. Sociedade do espetáculo Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FIORI, J. L. Nome aos Bois. Instituto da Cidadania. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2002.
FRIGOTTO, G. Brasil e a política econômico-social: entre o medo e a esperança. Trabalho necessário. ano 3 n. 3 Rio de Janeiro: UFF, 2005.
KOSÍK, K. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

update 12:25 em diante >> outros posts dos blogleft:
:: Nós na Rede – Ações coordenadas de blogagem coletiva, projeto que nasceu da Blog-Left (copiei da Elenara) >> a qualquer momento deste batday.
:: Pátria – Afonso
:: Sete de setembro com Nós na Rede – Elenara
:: Hoje é feriado, mas eu trabalho – Lixo tipo especial.
:: Ode ao umbiguismo – Monicômio
:: Independência ou Morte – Túlio Vianna
:: O que significa independência hoje – Stuck in Sac
:: Independência e Corte – Lucia Malla
:: O país do swing é o país da contradição – Denise Arcoverde
:: Independência ou Maya – smart shade of blue
:: Às margens do Ipiranga – NCC
:: Te amo mesmo assim – Pensar Enlouquece
:: Como mulher de malandro – Contra o Consenso
:: Repensando a independência – Cynthia Semíramis

update 15h >> outros blogs que aderiram, coletado pela Denise:
:: Brasil – À Francesa
:: Brasil – Pelo Cordão – C.O.S.F. Com o sotaque francês
:: Design brasileiro – Básico e Necessário
:: Dia da independência do Brasil – Nutriane
:: Independence Day – Chez Moi
:: Liberdade, Liberdade – Encontros do Cotidiano (minha mãe)
:: Meu País – Papel Maché
:: Onde cantam os sabiás… – Tudo Pode Acontecer
:: Pátria Amada!!! – Entre Dois Mundos
:: Sete de Setembro – A Sopa no Exílio
:: Sob o mesmo céu – Macaxeira Blues

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9 Respostas para “outro sete de setembro”

  1. Mônica says:

    Sabe como é, festejando juntos, aos poucos os festejos e as festas se identificam e se diluem uma na outra. Foi assim que a festa do sol virou natal.

    Pois é, Suzana. Acho que no caso aí quem se diluiu foi a festa pagã, e a celebração cristã tomou conta. Será que no Governo não foi mais ou menos isso também? Sei lá.

    Muito legal seu texto. Infelizmente, eu penso sobre as coisas em geral de forma pessimista. E, embora não seja de acompanhar assuntos políticos (talvez seja uma falha minha), achei bonita a vitória do Lula. Agora tô achando tudo feio.

    Ainda bem que, num pontinho aqui e noutro ali, parece que existem coisas legais acontecendo DE FATO.

  2. Flavio Prada says:

    Suzana, teu ultimo paragrafo é primoroso. Porém, autonomia pressupoe um nivel de participaçao e comunicabilidade que somente a praxis fundada em principios claros e objetivos bem definidos podem delinear. Voce leu o Kosik e entao entende que as aparentes contradiçoes de um sistema compoe a propria essencia do mesmo. Ou seja, as coisas sao o que sao e o seu contrario ao mesmo tempo e é na pratica que as ambiguidades se resolvem. Por isso, para ser autonomos, devemos ter os mesmos objetivos. Para sermos livres devemos estar ligados a um projeto. A aparente contradiçao se resolve com o que existe de mais raro no mundo: inteligencia e boa vontade.

  3. Su says:

    Flávio e Mônica
    O nó da coisa é a contradição, dissestes bem. E a contradição pressupõe este m ovimento que muitas vezes nos afasta na direção oposta ao objetivo. por isso o importante é ficar cuidando o leme 🙂
    abraço,
    Su

  4. Leila says:

    Lindo, Suzana. Especialmente no momento em que você convida a não nos deixar arrastar pela hipnose coletiva, pela histeria, e sim refletir de forma madura e independente.

    Um abraço,

  5. Túlio Vianna says:

    Valeu, Suzana! Adorei participar desta postagem coletiva com vcs! Que seja a primeira de muitas ações conjuntas! Abração!

  6. Anonymous says:

    Apesar de minha tristeza frente a tudo o que está ocorrendo, acredito, sim, que um outro Brasil, independente, é possível.
    Mara

  7. Lucia Malla says:

    O Flavio disse tudo: inteligencia e boa vontade. Melhorias vem de acao em cima desses dois patamares.

  8. Anonymous says:

    Belo texto, parabéns…
    abraço,
    Fabio

  9. Elenara Iabel says:

    Su, tive que recorrer a lista com trocentas msgs nossas para encontrar teu texto, pois ele não está no blog nós na rede. Sobre o texto que tu escreveu, olha me deixou encantada… sério! essa dom de escrever muito bem sem ser óbvio do óbvio, lugar e senso comum são pouquíssimas pessoas que possuem. acabo de descobrir que temos uma blog-left talentosa. Parabéns! Obrigado pela oportunidade de dividir alguns momentos dessa vida contigo.

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