abr 05 2005

O código Wojtyla

Categorias: sem categoriaSuzana Gutierrez @ 16:26

Bem interessante a análise de Flávio Aguiar sobre o pontificado de João Paulo II, publicada no momento em que sua morte faz a maioria da imprensa desconsiderar os fatores históricos e dimensão das suas ações como chefe da Igreja Católica. Faz, também, uma comparação do papa com o homem e das contradições que estes dois papéis podem envolver. Aqui vai uma provocação:

A fé é o claustro da subjetividade: em seu espaço, dentro de cada indivíduo, só entra o próprio ego. Ai de quem desafiar este espaço: o ego ameaçado imediatamente demoniza a alteridade, temeroso que é de sua própria alteridade, seja a da liberdade que pode conquistar modificando-se, seja o do retorno de tudo aquilo que teve de renegar para consolidar-se, e que muitas vezes retorna em momentos em que o indivíduo, como se diz, “perde a cabeça”, ou em linguagem jurídica, “é tomado de forte emoção”.

O ego que navega em seus espaços de fé, portanto, ainda que solitário, está acompanhado de seus apetites, mas sobretudo de seus medos. E se há algo que o pontificado de Wojtyla cultivou, regou, acolheu, adubou, foi o medo. Menos, talvez, pela personalidade do papa, que demonstrou possuir muita coragem e determinação pessoal, sobretudo diante da morte nos últimos dias de seu tempo terreno; mais pela contínua conspiração vaticana, soturna e implacável, que sua personalidade midiática continuamente recobria.

A construção do pontificado de Wojtyla antecipou a da presidência de George Bush, The Second. Como esta, aquela foi fruto de um golpe de Estado, cujo gatilho foi disparado com a morte súbita de João Paulo I. Se esta morte foi natural ou criminosa, só Deus, com certeza, sabe. O que é certo foi que a cúpula vaticana, que fora ameaçada em seus interesses e desinteresses pela eleição de um cardeal com espírito de frade franciscano, reagiu de modo fulminante, abrindo o caminho, num perplexo colégio de cardeais, para a escolha oposta, a de um conservador oriundo de uma das plagas onde vicejavam os brotos mais reacionários da Igreja Católica: o Leste Europeu. [segue na Agência Carta Maior]

É bom, até para cutucar a contradição, ler do André Lemos, O Papa é Ciber, na Revista Novae:

A morte de um papa é sempre um acontecimento histórico. Milhares de peregrinos, curiosos, turistas e voyeurs estão nesse momento mesmo na praça de São Pedro, no Vaticano, dentro da cidade de Roma, reunidos para prestarem a última homenagem ao santo padre. A morte de João Paulo II é um acontecimento histórico não só pela morte do líder da igreja católica, como acontece há séculos, mas pelo uso das novas tecnologias durante a espera por informações sobre sua saúde, no momento do anúncio da morte e nos atuais rituais (ancestrais) do funeral.

O papa João Paulo II foi o primeiro da igreja católica a usar as novas tecnologias da cibercultura para angariar fiéis e para espalhar pelo mundo palavras de fé. O papa não era pop, o papa foi “ciber”. Ele lançou o site do Vaticano, usava a Internet, abençoou Santo Isidoro de Sevilha como o patrono do ciberespaço e dos internautas. Não é à toa que a morte do papa não foi anunciada primeiro pelos rituais sacramentados por séculos de cristianismo (fechamento de portas de bronze, tocar dos sinos, cerrar das persianas, música fúnebres) mas por e-mail.

E, para coroar este apanhado de pensamentos e vistas de um ponto, o excelente post do Inagaki:

Em tempos nos quais pessoas acotovelam-se em frente à TV para assistir aos participantes do Big Brother presos naquele aquário midiático, quem haveria de estranhar que a agonia de João Paulo II tenha sido transmitida em tempo real? Há que se lembrar também que Karol Wojtyla foi, provavelmente, o homem mais filmado e fotografado em todos os tempos – extremamente cônscio da importância da mídia, foi acompanhado por câmeras em suas viagens por mais de 100 países, acenando para as multidões de dentro do seu papamóvel e imortalizando o gesto de ajoelhar-se para beijar o solo de cada lugar em que aterrissava. Além disso, trouxe o Vaticano para a Internet, gravou álbuns e escreveu livros que venderam milhares de exemplares mundo afora.

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